Cinema
BLADE RUNNER 2049

Ao contrário da estreia do primeiro Blade Runner – O caçador de andróides, dirigido por Ridley Scott; a estreia do segundo filme tem sido prestigiada pela crítica. Cheguei até mesmo a ler em uma das críticas, que Blade Runner 2049 de Denis Villeneuve, superaria o Clássico Cult de 1986. Sim, o primeiro filme não foi bem aceito a princípio. Mas este erro foi corrigido posteriormente, e o filme recebeu a consagração que merece. Mas antes de continuar, talvez seja interessante relembrar o que seja um clássico.

Geralmente, um clássico é de vanguarda e portanto, um marco. Algo que não passará. É o mais próximo da originalidade e/ou genialidade. Digo quase próximo da originalidade pois embora possa ser de vanguarda, é improvável desde a certa altura da história da arte (e neste caso, do cinema) produzir algo com total originalidade. O (a) diretor (a), o (a) roteirista, enfim, cineastas, de maneira consciente ou inconsciente recebem influencias de outrem. E mesmo que não tenham tido contato com ideias semelhantes as suas (pode ocorrer), possivelmente alguém já as tornou conhecidas; o que torna suas ideias não totalmente originais. Há quem diga que tudo já foi feito em cinema e tudo já foi escrito em Literatura.

Então, como sofrer influências, utilizar referências e ainda assim, produzir algo singular e/ou genial? Talvez a resposta para esta questão seja bem simples: cada homem é único. Temos aí Tarantino como um bom exemplo do sarcástico dito ‘’nada se cria, tudo se copia’’ e que mesmo assim, produz clássicos.

Blade Runner (1986) bebeu nas fontes do romance de ficção científica Do Androids Dream of Electric Sheep?, de Philip K. Dick, de 1968; o romance de terror gótico de Mary Shelley, Frankenstein; utilizou simbolismos bíblicos e conceitos gregos. Conectou todas estas referências para abordar a questão da existência pelo viés da engenharia genética. Como estética, utilizou o Filme Noir atrelado ao conceito de retrofit (aproveitar objetos e construções antigas dando um ar moderno) e também, referências do filme de ficção científica Metrópolis do austríaco Fritz Lang de 1927. Enfim, outras tantas referências foram utlizadas em Blade Runner – O Caçador de Andróides. Mas o filme também foi uma das vanguardas do que viria a ser o conceito cyberpunk. O resultado disto tudo foi um filme esteticamente estupendo. Uma mistura caótica mas bela entre o antigo e o moderno. Um roteiro aparentemente simples mas profundo em aplicação e significado.

Já Blade Runner 2049 não é homogêneo. Parece ter ficado dividido em duas partes. A primeira, de uma fotografia primorosa, uma trilha envolvente e um roteiro cativante que promete e a segunda parte, quando Rick Deckard (Harrison Ford) entra na estória, mas a fotografia e o roteiro saem de cena de mãos dadas. À partir daí é só mais um filme de ação comum e até mesmo com momentos maçantes.

Um erro aqui ou ali, algo que não gostamos acolá, mesmo em obras geniais acontecem. Mas quando parece haver uma ruptura brusca de linguagem, roteiro e estética, a impressão é que há dois filmes em um. Escritos, dirigidos e desenhados por pessoas diferentes.

As atuações também poderiam ter sido melhores trabalhadas. Harrison Ford por exemplo, parece ter caído de pára-quedas no papel. Jared Leto como Niander Wallace (dono da empresa fabricante dos andróides), não teve muito o que fazer por sua atuação. O papel era inexpressivo. Propositalmente mas, não convence. Assim como a protagonista de House Of Cards, Robin Wright que não conseguiu fazer muito como a chefe de polícia Lt. Joshi. O protagonista Ryan Gosling cumpriu seu papel de forma justa (nem mais nem menos), interpretando o Policial K. Talvez o destaque das atuações seja Ana de Armas, sua namorada virtual Joi. A vilã Luv também teve uma interpretação justa por Sylia Hoeks. Mas de qualquer forma, são quase três horas de filme em que os personagens não dizem à que vieram. Spoiler: o personagem que poderia ter rendido e em poucos minutos o ator mostrou sua força interpretativa, morre logo no início.

Este filme é um exemplo de que se cada mente é única, e daí poder criar obras singulares mesmo com tantas influências culturais e artísticas, não quer dizer que sempre se conseguirá esta façanha. Fosse assim e todo filme seria um clássico, todo livro se tornaria um clássico. Blade Runner 2049 é um bom filme mas não se vê elementos para ser um marco na história do cinema. Também, dizer que ele superaria o primeiro filme é no mínimo, exagero. Para superar o filme anterior, ele teria de no mínimo ter força para ser outro clássico primeiramente. Porém, o filme não consegue ressurgir de dentro de sua inspiração original; e quando tenta a independência, cai no lugar comum; do mais do mesmo da ficção científica. O que se vê é apenas uma ótima e respeitável homenagem à Blade Runner – O Caçador de Andróides, com muitas de suas referências à lá Denis Villeneuve. Mas uma obra superestimada pela crítica que ultimamente parece fazer muito disto.

Mas se a crítica vai bem, a bilheteria, nem tanto. Assim como Blade Runner – O Caçador de Andróides, Blade Runner 2049 não tem alcançado bons números. Contradições e ironias do cinema.

 

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About the author

Paulistana; gosta de escrever, dias nublados, leituras densas, música, cinema e gastronomia.

2 Comentários

  1. Chronosfer

    Oi, Lílian. Não sei se o comentário que escrevi antes foi enviado. Repito: alegria com teu retorno – seja duradouro – e em alto estilo com o texto lúcido e rico sobre Blade Runner 2049. O meu abraço carinhoso.

    • Lilian Lima

      Olá, Fernando! Fico muito feliz pelas palavras de boas-vindas e pelo teu comentário sobre o texto. É sempre uma honra. Obrigada. Grande abraço!

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