Cinema
LOGAN

[CONTÉM SPOILERS]

Logan, ainda em cartaz aqui no Brasil, tem alcançado boas críticas e ótimos comentários dos fãs.

É fato que o Diretor James Mangold, tentou apresentar uma proposta um tanto diferente sobre filmes de super-heróis. Trouxe para as telas, a brutalidade dos quadrinhos e ousou ir na contra-mão da fórmula de roteiro para o gênero. A manjada esquematização: herói inicia uma jornada, enfrenta inimigos e perigos e por fim, vence. Retoma o equilíbrio do mundo; das forças entre o bem e o mal e torna-se mais forte e sábio.

Em Logan, esta jornada não acontece. O gráfico da trajetória dos super-heróis é um declive. Ou melhor, uma queda livre. Ao menos ao que se refere aos três super-heróis que restaram no ano de 2029: Professor Charles Xavier (Patrick Stewart), Caliban (Stephen Merchant) e Wolverine (Hugh Jackman).

Logan e Charles estão velhos e doentes. Logan está envenenado pelo Adamantium. Charles, tem Alzheimer e vive a base de remédios. Não controla mais seu poder e tem crises e convulsões que podem causar a morte das pessoas ao seu redor. Caliban é um mutante que não se encaixa propriamente no termo super-herói. É um personagem ambíguo em sua trajetória. Mas velho também, está debilitado e com alta sensibilidade à luz do Sol.

Os três moram em um lugar ermo em uma fronteira do México. O cenário deste lugar é uma mistura de Velho Oeste e Mad Max, que contrasta com o restante dos cenários. Interessante a habitação de Charles (no mesmo terreno porém, à parte dos outros dois). O lugar (uma gigantesca caixa d’água tombada), lembra sua cúpula. Porém, não mais a cúpula como a do Instituto Xavier mas, uma cúpula em mal estado. Assim como ele e sua mente, estão também. Um ótima metáfora.

Caliban toma conta da ‘habitação’ e de Charles, enquanto Logan ganha a vida como motorista de limusine. Ele os sustenta, além de conseguir os remédios para Charles, subornando funcionários de um hospital. O plano deles é comprar um barco e viver o tempo que lhes restam, em alto mar. Plano este que vai por água abaixo, quando a pequena mutante Laura, a X-23 (Dafne Keen), aparece.

Os primeiros momentos do filme são primorosos. Os super-heróis humanizados e decadentes, vivendo uma vida comum do dia a dia, é algo tocante.

Mas humanizar super-heróis não é algo novo. Super-heróis ao longo da história dos quadrinhos e filmes, por vezes perderam poderes, entraram em depressão e decadência. Porém em Logan, isto foi tratado de uma forma muito realista e a fragilidade dos super-heróis foi causada justamente pelos seus poderes. Aqui, a ironia é a chave; onde também, se não fosse os inimigos ter-lhes abreviado o fim, talvez ele não demorasse a chegar. Anti-Clímax, total.

O público não sabe lidar com a morte de seus personagens preferidos. Daí ser trabalho dos criadores amenizar este impacto (ou não). Em Logan, isto funciona muito bem. A morte dos super-heróis velhos e doentes, soam mais como uma espécie de coroação, e um alívio para eles. Há recursos de roteiro, que são assimilados apenas pelo inconsciente. Mas nem tanto quando Wolverine com rosto sereno diz à Laura na hora de sua morte: “so that’s what it feels like…’’ (então, esta é a sensação?). Isto porque ele passou todo o tempo de filme, em agonia.

Mas se por um lado, as mortes dos super-heróis em si foram bem resolvidas, a forma como elas ocorreram, nem tanto. Um roteiro que se propõe inovador, perde força ao recorrer à clichês.

E por falar em clichês, vale a pena elencar mais alguns como: a busca de um personagem por um lugar de ‘salvação’, o qual somente ele acredita em sua existência. Que no caso de Logan, foi a busca de Laura pelo lugar chamado ‘Éden’. Outro evento, e este não se encaixa muito como clichê mas já está um tanto saturado, é a criação de soldados do futuro. Fechando a lista, os antagonistas da estória (os vilões) não poderiam ficar de fora. Embora muito bem interpretados, não fugiram do trivial e caricato.

Ao centro, o vilão mercenário Donald Pierce (Boyd Holbrook)

Um filme profundo

Segundo as diversas matérias sobre Logan, James Mangold quis fazer um filme profundo.

Super-heróis velhos e decadentes vivendo uma vida comum é uma premissa profunda. Um Wolverine decadente, alcoólatra, ganhando a vida como motorista de limusine, com seu corpo envenenado, e com seu processo regenerativo afetado, é um personagem profundo. Mas é a forma como um roteiro é construído, e de como os personagens são construídos dentro do roteiro, que esta profundidade vem à tona.

Aqui, é preciso fazer algumas distinções: uma coisa é uma interpretação profunda (trabalho do ator/atriz); a outra, é a construção deste personagem dentro do roteiro, de forma que sua profundidade seja revelada para além de sua interpretação, e para além de sua descrição (trabalho do Diretor e roteirista). Igualmente, uma coisa é uma Premissa, um Argumento de roteiro dito profundo; outra, é conseguir fazer com que esta profundidade seja revelada através da construção do roteiro. Trocando em miúdos, imagine uma estória densa que um colega (que representa o roterista) lhe conta, mas a forma com que ele o faz minimiza a situação?

Em Logan, os atores interpretaram de forma profunda seus papéis. Nos filmes anteriores, não tínhamos visto um Patrick Stewart e um Hugh Jackman tão bem executados (até porque não havia outras nuances dos personagens para os atores explorarem, nem as estórias foram aprofundadas). Porém, na construção dos personagens dentro da estória: o que eles fazem, o que eles dizem, o que eles pensam, seus lirismos (novamente: não a interpretação dos atores), a profundidade não foi plenamente trazida à tona. Igualmente, a  profundidade da estória. No entanto, havia elementos fartos e disponíveis para isto.

Soubemos muito mais deste Logan decadente pelos outros personagens do que pelo próprio. Como por exemplo, quando Caliban no início do filme começa a falar à Logan sobre sua vida desregrada e depois, Xavier, quando Logan leva os seus remédios. Neste tipo de abordagem, a construção da profundidade do personagem fica comprometida pois, a profundidade deve ser evidenciada pelo próprio personagem e suas circunstâncias. Evidenciar visivelmente a decadência do personagem não é trazer a tona sua profundidade. O fato dele estar visivelmente acabado não nos faz saber o que passa em sua mente. E é o que passa na mente do personagem que o faz profundo. Aspectos semelhantes, ocorrem com a personagem Laura (X-23).

Laura, é uma criança mutante, fabricada em laboratório. Um clone do Wolwerine que tem garras de Adamantium nas mãos e nos pés e que age como animal matando seres humanos. Até aí, surpreendente. Ficamos estarrecidos ou boquiabertos ao ver uma criança estraçalhar as pessoas com frieza e maestria (algo nunca visto ainda ao que me lembre). E ficamos surpresos em ver a interpretação da atriz mirim nestas cenas. A isto, denominaram profundidade. Porém, quem de fato é Laura? Seu psicológico; emocional, personalidade? O que ela pensa? Faltaram os elementos que constroem o perfil do personagem e o humaniza. É trabalho do Diretor e roteiristas construirem isto.

O fato dela ficar muda boa parte do filme não é problema pela falta desta construção. Temos exemplos de personagens semelhantes que nos revelam seus perfis e sua profundidade. Despertam da empatia à antipatia. Sim, houve alguns poucos momentos em que chegou-se perto de uma construção neste sentido. Como a aproximação de Laura com Charles Xavier e em como ela se comportou ao vê-lo morto, por exemplo. Mas os poucos momentos são quebrados nas sequências seguintes.

Outra construção que não trabalharam, foi a relação entre Laura e Logan. Quando Logan morre em seus braços (praticamente), a garota dá um show de interpretação. Porém, quando ela chora tão comovida e o chama de ‘pai’, não há uma coerência com o que veio antes pois, não houve uma construção desta relação e daí o estranhamento.

Tecnologias e eventos

Diretores fazem escolhas. Em tese, ele é o responsável por criar universos. E James Mangold fez algumas escolhas que soaram um tanto duvidosas. Neste ponto, talvez seja uma questão um tanto subjetiva mas vale a pena citar.

O primeiro recurso é o vídeo de celular que Logan e Charles assistem, onde a mexicana que tentava fugir com Laura gravou. No vídeo em linguagem propositalmente amadora de câmera escondida, ela denuncia a empresa que criou os mutantes em laboratório e os transformou em assassinos. Mostra também, cenas com estas crianças. Achei um recurso fraco. Além de que, a estória se passa em 2029. Seria ainda esta a tecnologia?

O outro recurso, foi o aparecimento do ‘Wolverine jovem’ e causador da morte de Logan. Achei que este aparecimento enfraqueceu a supremacia de Laura como clone de Wolverine e como uma das grandes surpresas do filme. Além de que, o aparecimento ficou um tanto sem sentido, já que com o Logan debilitado e sem poder de recuperação, qualquer coisa o mataria. Não precisaria um outro Logan para o matar. Um personagem avulso e desnecessário.

Por outro lado, talvez os criadores quisessem trazer um momento de ‘reflexão’ à Logan em seus momentos finais ou mesmo ao público, colocando frente à frente: passado e futuro. A ideia em si é boa mas a impressão é que neste filme e momento, era totalmente dispensável. O personagem ficou  avulso.

Logan é um bom filme. Um filme diferente dentro da saga Wolverine. Experimental, com acertos e não acertos. Uma tentativa de inovação, ainda que não desprendida totalmente de um terreno conhecido. Teve clichês, desconexão entre personagens, recursos duvidosos mas teve interpretações magníficas, momentos tocantes e até engraçados para além do movie road e da matança.

Como obra única, o ciclo dos heróis não teve seu desfecho convencional porém, o filme deixa uma promessa de retomada do equilíbrio da jornada do herói, na figura dos personagens infantis. Não deu para fugir tanto assim da fórmula.

Créditos: imagens da internet.

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Paulistana; gosta de escrever, dias nublados, leituras densas, música, cinema e gastronomia.

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