Literatura Inglesa
MRS DALLOWAY / VIRGINIA WOOLF

 

Mrs Dalloway é um livro reconfortantemente melancólico. Reconfortante pois esmiuça aquelas pequenas banalidades humanas em suas intimidades, mas tão preciosas. Preciosidades banais do cotidiano que em suma, são delas que somos feitos e delas que vivemos.

Mas Virgínia Woolf expôs estas miudezas como pequenas estampas floridas num tecido de pano de fundo de uma Londres pós-guerra. E como não poderia deixar de ser, a estampa não é uniforme. Há flores desbotadas, outras com um pouquinho mais de cor (ou lutando para mantê-la); outras murchas ou até mesmo mortas.

A obra não tem um enredo propriamente, a não ser pelo fato da estória passar em um único dia do mês de junho; o dia em que a protagonista Mrs. Dalloway (Clarissa), uma quinquagenária que irá dar uma festa em sua residência onde mora com seu marido deputado Richard Dalloway, e sua filha de dezessete anos, Elizabeth.

Uma premissa aparentemente banal. Mas que Virgínia faz desta banalidade revelações virem a tona: aquilo que no final das contas importa na vida das pessoas por mais banais que sejam estas coisas.

No início do livro, ficamos um tanto confusos mas logo percebemos o jogo que Virgínia fez em sua narrativa, revezando de um personagem para outro num abrir e piscar de olhos e por fim,  interligando-os direta ou indiretamente.

No esmiuçar da intimidade de cada um, imergidos naquilo que mais nos identificamos, na humanidade. Em suas diversas nuances e dilemas.

Mas tudo parece tão leve, tudo tão ensolarado, tão claro e inteligente na escrita de Virgínia. Sua escrita sofisticada porém alcançável, é imensamente cativante. Ela descreve como poucos uma situação, uma pessoa. Aquele tipo de coisa que percebemos nos outros ou em uma situação mas, não saberíamos expor em palavras.

Mas Clarissa (Mrs Dalloway) dará uma festa. E junto com os preparativos, chegam as lembranças do passado tanto na mente da anfitriã, quanto na mente dos convivas. De forma que Virginia costura o enredo de forma sucinta entre os dois tempos, e podemos ter uma dimensão de todos numa obra de apenas 188 páginas.

Outro recurso interessante na narrativa de Virgínia nesta obra, é que preconcebemos uma ideia de cada personagem mas de repente, esta concepção é confrontada com a concepção dos demais. Temos uma ideia de Clarissa, por exemplo, mas cada personagem tem uma ideia diferente de Clarissa. A própria Clarissa tem uma ideia diferente de si mesma, e esta também é conflituosa, pois Clarissa é insegura quanto a si. Ela se importa com o que pensam dela e ela mesma parece não ter certeza de quem seja. Seria ela apenas uma cinquentona um tanto fria e que sabe dar festas?

Mas nem todos os personagens pensam sobre si mesmos. Eles apenas vivem e revivem. Talvez outros dois personagens que pensam sobre si é Peter Walsh, um ex-namorado de Clarissa à quem ela abandonou para se casar com Richard mesmo gostando dele ainda. E sendo um quinquagenário também, não tomou rumo na vida. Nem profissionalmente, nem sentimentalmente.

A outra personagem, que pensa em si mesma mas de uma forma um tanto distorcida da realidade, tem pouco espaço na estória porém, uma personagem marcante. A alemã, refugiada de guerra, Doris Kilman, amiga de Elizabeth, a filha de Clarissa. Kilman e Clarisse nutrem um ódio mutuo velado.

Eles a mandaram embora porque ela não conseguia fingir que os alemães eram vilões […] O Mr. Dalloway a tinha conhecido quando ela trabalhava na casa dos Friends. Ele tinha permitido (e isso era realmente generoso da parte dele) que ela ensinasse história para sua filha. Ela também dava umas aulas extras e por aí afora. Então, Nosso Senhor tinha vindo a ela (e nesta parte ela sempre curvava a cabeça). Ela tinha visto a luz fazia dois anos e três meses. Agora ela não invejava mulheres como Clarissa Dalloway; ela tinha pena delas. Ela tinha pena e as desprezava do fundo do coração […] ela deveria estar numa fábrica; atrás de um balcão; a Mrs. Dalloway e todas as outras senhoras finas!” […]
Então elas iam às lojas. Era estranho enquanto a senhorita Kilman estava lá parada […] segundo a segundo diminuía a ideia dela, como o ódio (que era para as ideias, não pessoas) se desintegrava, perdia sua malignidade, seu tamanho, se tornava segundo a segundo somente a senhorita Kilman em um impermeável, alguém que certamente Clarisse teria gostado de ajudar.
Ante a diminuição do monstro, Clarissa riu. Dizendo até logo, ela riu. E lá se foram juntas, a senhoria Kilman e Elizabeth descendo a escada.
Com um impuso súbito, uma angústia violenta, pois essa mulher estava tirando sua filha dela, Clarissa debruçou sobre o corrimão e gritou? ”Lembre-se da festa! Lembre-se da esta hoje à noite!”.
Mas Elizabeth já tinha aberto a porta da frente; havia um fogão passando; ela não respondeu.
Amor e religião, pensou Clarissa, voltando para a sala de estar, o corpo formigando. Detestáveis como era detestáveis! Pois agora que o corpo da senhoria Kilman não estava à sua frente, era avassaladora – a ideia. As coisas mais cruéis do mundo, ela pensou, vendo-as desajeitadas, ardentes, dominadoras, hipócritas, espiãs, ciumentas, infinitamente cruéis e inescrupulosas, vestidas em um impermeável, no descanso; amor e religião.”

É um leque diversificado de personagens. Cada um representa uma parcela da sociedade desde suas classes sociais, até mesmo em suas personalidades. E sendo um cenário de pós-guerra, Virgínia não deixou de fora aquele que foi à Guerra e perdeu sua saúde mental, representado no personagem Septimus Smith, o qual ocupa boa parte da narrativa e é muito tocante seu estado.

Mas é uma obra que faz um recorte da aristocracia por fim. Mas como diz aquele velho slogan de uma novela estrangeira ”os ricos também choram”.

O que resume o livro o tempo todo mas só nos damos conta ao terminar-lo é a frase que Clarissa lê em um livro:”Não temais mais o calor do sol nem as iras furiosas do inverno’.

Mrs Dalloway é um livro para a vida e para a morte.

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About the author

Paulistana; gosta de escrever, dias nublados, leituras densas, música, cinema e gastronomia.

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