Conto
O Espetáculo / Conto

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Tomar ônibus vazios sempre provocara sensações distintas em Pablo. Uma delas, é a sensação de que algo de grave aconteceu e restam apenas ele e os condutores no mundo. Outra, é apreensão, por ser o único motivo do ônibus estar em movimento naquele instante. Embora de fato ele não seja o motivo, a sensação é a de um privilégio constrangedor.
Também, de que poderia de uma hora para outra, lhe ser designada uma responsabilidade que o tirasse de sua rota. Ser a única testemunha de um assalto; de uma batida; de um assassinato?!
Nestas horas pensa também, de que é bom não ser uma mulher. De certo temeria estar só no ônibus com dois homens e sabe-se lá quantos outros entrarem.
‘’Como devem sentir-se nestas horas sendo mais frágeis?’’ Mas repreende o pensamento. De certo elas discordariam com a parte de ‘mais frágeis’. Ah… Mulheres… Vivem de ilusão em um mundo que as devoram. Talvez sua maior força. Este pensamento mágico de viver.”
Mas depois destas sensações, Pablo se aquieta. Põe-se a desfrutar da segurança de que o ônibus o conduz ao seu destino. Um destino certo. Escolhido; pensado, decidido por ele mesmo. E poder decidir é sempre bom.
Mas de repente, entram outros passageiros e Pablo os observa um a um.
Repara que por hábito, eles passam pela catraca como se fossem gados ainda que não seja hora do rush. Rodam o ferro com força como a um direito que se tem e que como são tão poucos na vida, melhor que se faça com gosto e espetáculo; sem importar-se com quem vem atrás ou com quem vai à sua frente.
Mesmo o ônibus estando vazio, também não perdem o hábito de sentarem-se as pressas, competitivos, com medo de que lhe tomem o lugar.
Os homens em especial, parecem dar-se o direito de sentarem arreganhados logo de pronto; à fim de garantirem o conforto de seus bagos. Roçam suas pernas nas dos outros invadindo o minúsculo espaço alheio, fingindo não perceberem. Mas incrivelmente, até conseguem evitar que suas pernas rocem a de outros homens e então, provavelmente torçam para sentarem-se ao lado de fêmeas. Pois lhes parecem de direito por terem bagos, encurralá-las para os cantos.
Algumas mulheres, com perfumes fortes, fazem nausear o estômago. Outras, jogam os cabelos a todo instante, chicoteando a face de quem estiver por perto. Duas, falam da vida alheia e da própria, a plenos pulmões. Um jovem ouve música sem fones de ouvido, outro, vomita nos pés e na sacola de uma senhora. A esta altura, o ônibus já está repleto de passageiros.
Quando algum levanta-se do banco em que está sentado para descer, ainda demora-se de pé no lugar; marca o território que não será mais seu apenas para tripudiar de quem anseia pela desocupação.
Pablo gostaria de não se ater nestes detalhes humanos. Mas por que o faz?! Suspira entediado. Levanta-se e aperta a campainha. Sente já os ventos da liberdade porém, a vida continua e Pablo desce na Praça da República. Faz o percurso até o Teatro Municipal. A noite fresca de céu límpido inverte a ordem do espetáculo que irá assistir fazendo dele, o que seria um prelúdio.
A natureza… O que a supera até em sua face mais cruel?
Faltam vinte minutos para o espetáculo começar e Pablo aguarda, recostado em uma das colunas da escadaria; metido em um blazer de veludo e uma calça pretos que não costuma usar e que por isto, parecem novos.
Pablo aguarda como quem não sabe o quê, e observa a movimentação das pessoas.
O burburinho, o fervilhar de gente como uma taça de espumante, novamente o atordoa. Pensa em como gostaria de não ser como um fio desencapado, com os nervos expostos, captando o bem e o mal.
Mas o mal que capta ali é diferente. Não é bruto como o do ônibus. É polido, disfarçado. Beijos nas faces, interjeições e exclamações adocicados. Bocas com sorrisos que destoam do que dizem os olhos. Musicalidade na voz, cuja freqüência não atinge em cheio a nota. Cantam no falsete…
Pablo se mortifica mais uma vez. Maldição! Seriam seus nervos feitos dos mesmos mecanismos de um polígrafo?
Mas nem sempre seu consciente lhe revela as respostas, deixando-o apenas amargurado…
Um gato amarelo senta na mureta. Como Pablo, ele também observa a movimentação. Uma companhia silenciosa e inesperada.
O gato sentado na mureta, faz o que tem de fazer: ser gato — observa Pablo —.
O gato é um gato… E pronto! O gato não precisa provar que é um gato e então… Pablo inveja o gato. O gato some num pulo; para dentro da escuridão da noite.

 

Por Lilian Lima

 

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About the author

Paulistana; gosta de escrever, dias nublados, leituras densas, música, cinema e gastronomia.

2 Comentários

  1. Marcio Leitão

    Muito bom Lilian, gostei da observação dentro do ônibus quando alguém vai descer e fica demarcando o lugar que logo não será mais seu!!!kkk
    Eu trouxe um primo do interior de SP (Assis – SP) para passear aqui na capital (SP), ele achou muito estranho ter tanta gente na rua e como as pessoas são alienadas dentro dos ônibus e metrô, disse que falta bom dia, boa tarde. Diferente da vida do campo, onde todos se cumprimentam e a boa educação transparece, desde os mais velhos até aos mais novos!!!

    • Lilian Lima

      Olá, Marcio. Quem não está acostumado, estranha mesmo. Ou não. Como o personagem Pablo, rs. Obrigada por comentar!

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