Conto
CARONTE / CONTO

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Chegara o dia de Pablo acertar sua situação com a Parla Editora. Para tanto, encontrara-se com Zoraide no Ministério do Trabalho. O saguão lotado de gente e abafado prediz que nem tão logo eles serão atendidos. Sentados lado a lado, eles aguardam piscar no painel luminoso a senha que lhes deram.
Zoraide devora agitada e frenética, um saco de biscoitos de polvilho. Pablo de caneta empunhada sobre seu caderninho, como que congelado no tempo, nada escreve.
— Você já está trabalhando? — Pergunta Zoraide à Pablo.
— Não…
— Vai ser fácil você arranjar um emprego de vendedor. Você vendia bem… — Zoraide o espreita esperando que ele comente sobre sua demissão que para ela, é mais um mistério em torno dele. Mas Pablo nada diz e continua com a caneta de prontidão, em alerta, como a espera de uma revelação.
Diante dos seus olhos, passa um senhor acompanhando de quem talvez seja seu neto. A visão tira Pablo de sua distração interna, pois um jovem acompanhando do avô é coisa rara de se ver hoje em dia. O neto não deve ter vinte anos. O senhor, talvez já passe dos setenta.
Eles retiram uma senha e sentam-se ao lado do representante da empresa em que o garoto provavelmente trabalhava.
Pablo observa aquela figura comprida, ossuda e acinzentada, como a uma árvore antiga. ‘’Ele já está no estágio avançado’’ — Pensa Pablo que se põe a olhar as suas próprias mãos.
‘’Nossa doença de morte… Não fosse ela e seriamos todos sempre árvores frondosas paradas numa eternidade. Mas quem quer viver para sempre?
O velho move o tronco e sua copa lentamente, aproximando-se do ouvido do neto. Ele lhe sussurra algo com sua voz de árvore. A voz do farfalhar de folhas. A voz que parece ter aquietado o coração do neófito que agora balança suave a cabeça, a sombra daquela árvore.
Pablo sobressalta-se dentro de si mesmo. Pois neste momento descobre algo grandioso. Sim, os velhos… São maquinas do tempo! Já estiveram no passado e no futuro.
— Ah, sabe Pablo… — Ouve Pablo como que ao longe, a voz de Zoraide que não para de tagarelar.
— Pela primeira vez depois de tanto tempo, a Parla editora fechou no azul. Tá certo que um azul bem do desbotado… Mas… Já não foi o vermelho gritante…
Pablo põe-se a escrever de repente.

‘’Musa noturna. A noite cai fria…’’ – Escreve Pablo.

— Você escreve poemas? — Pergunta Zoraide lançando um olhar bisbilhoteiro em seu caderninho. Mas ele o fecha e o guarda no bolso da jaqueta.

— Bobagens… Rabiscos… É que me lembrei que estamos bem nos dias em que ocorreu a semana da arte moderna…
— Arte moderna? Olha, não sei se é disto que você está falando, mas a tal da arte que se faz hoje em dia é muito esquisita… Onde já se viu uma meia furada dependurada no teto ser arte?
— Você dizia que a Parla Editora fechou no azul desbotado? … Algo assim?… — Pergunta Pablo vagamente.
— Isso! — Ajeita-se Zoraide na cadeira com avidez — A Letícia me disse.
— Azul desbotado… É uma cor bonita… — Considera Pablo. Zoraide tem a língua em chamas. Quer continuar este assunto, mas Pablo volta a pensar em seu poema e no branco gelo… A visão de Catarina em seu quarto, naquela noite de temporal.
— Todas as pessoas que você cobrou pagaram, sabia?! — A voz de Zoraide começa a sumir novamente dentro de Pablo e ele a ouve agora como que de outro mundo… Registra as pessoas e coisas a sua volta em sua retina, mas não as enxerga.
— Pablo! — Pablo sobresalta-se. Apruma-se discretamente na cadeira.
— É… Eu sei que eles pagaram — Responde ele.
— Ah, você sabe então? A Letícia te disse?! — Pergunta ela com olhos curiosos.
— Não… Nunca mais falei com ninguém de lá — Fitando Pablo com olhar débil, Zoraide se pergunta se Pablo seria normal.
Depois da homologação, antes deles se despedirem no Marco Zero, ela lhe faz a pergunta que morreria se não a fizesse. Sobre constar em seu currículo, ele ser um astronauta.
— Sou formado em engenharia… Mas tenho planos de ir ao espaço, sim — Ele lhe estende a mão — Adeus Zoraide, tudo de bom.
Zoraide com a boca semi-aberta aperta frouxamente sua mão, o que faz Pablo soltá-la rapidamente. Mãos frouxas lhe causam repugnância; como se ele estivesse segurando algum anfíbio.
Ele se afasta de Zoraide e é logo absorvido pela massa de gente que transita pela Praça da Sé.
Plantada feito às palmeiras a sua volta, Zoraide se pergunta se Pablo seria extraterreno. Ainda pensava nisto quando viu sua pessoa reaparecer na escadaria da catedral e sumir novamente, para dentro da igreja. Ficara curiosíssima com sua entrada ali. Iria confessar-se? Mas, tinha de voltar para a empresa.
Sentado em um dos bancos da catedral quase vazia, Pablo observa a construção do templo. De tantas vezes que passara pela praça, é a primeira vez que adentra ali.
Repara agora em sua arquitetura interna neogótica, e de olhar tanta beleza, pensa que não precise existir os deuses das religiões de fato, pois a visão de suas catedrais já transporta o homem para algum lugar mais elevado.
A propósito, quando assumira a si mesmo que sua religiosidade era vã? Não se lembra. Mas admite que sua relação com o que transcende o entendimento, sempre fora racional. Nada a esperar, nada a pedir. Apenas conhecer. Ter a certeza. Mas esta parece ser impossível. Mais do que a suposta existência do que é desconhecido.
No entanto e também por isto, quanto mais lhe desvendam o universo, mais Pablo se aproxima daquilo que é ávido por negar. E como poderia ele mesmo ir contra a metodologia humana sobre as coisas?
Pois se fora do conhecimento não há salvação. Pablo diz que fora de seus próprios olhos, há dúvidas.
Pablo observa os ícones com seus semblantes contorcidos como a de um doloroso prazer. Talvez alguns artistas sejam uma espécie de masoquista, pensa. Quando moldam o barro, quando destilam palavras, quando compõem melodias ou pintam cores.
Pablo tira o caderninho do bolso. Põe-se a finalizar o poema que Zoraide o interrompera a escrita.

Musa noturna

A noite cai fria
Ainda mais fria adentro
Dentro da fria casa de Pablo

Pablo não sente frio
Seu olhar congelou o teto
Sobre a musa noturna
Fez nevar seu quarto

Branco mármore
Visão que o emudece
De impassível estátua
Tal impassível de Brecheret

No silêncio sepulcral, Pablo sente que poderia ficar sentado ali para sempre a escrever. Mas, de repente, de dentro do silêncio, explode sobre sua cabeça o som de toneladas de bronze. As toneladas de bonze dos sinos holandeses que badalam no alto da igreja. Pablo estremece, sacudido em seu âmago inebriado pelo som dos sinos que penetra em suas carnes, agita seu sangue e estremece suas medulas; como uma sedução ao mistério.
E quem fica imune aos sinos de uma catedral? Uma Catedral de arquitetura renascentista neogótica de sinos holandeses?! Em cuja praça, jaz o monumento simbólico que indicava o centro geográfico da cidade?! Eis as direções…
A cidade… Ela, Caronte. ”Non Ducor Duco” A que conduz, mas não é conduzida… Ela, que conduz aos céus, mas também, ao inferno.
Lá vem ela, atravessando a nave com seu vestido escuro a ressaltar sua palidez entre seus longos cabelos de ébano e seus lábios vermelhos.
Pablo levanta-se do banco e vai de encontro à Catarina.
— Demorei? — Diz ela com hálito de menta ao ouvido de Pablo, por causa do som dos sinos.
— Só algumas badaladas… — Diz Pablo sorrindo com os olhos.
Eles saem lado a lado da igreja, e descem a escadaria entre os mendigos sujos e fétidos. Almas penadas em seus trapos mortuários que se espalham neste momento sobre os degraus da igreja.
Depois de atravessarem a praça, ziguezagueiam pelas ruazinhas movimentadas do centro velho de São Paulo.
A hora do almoço faz a cidade ferver ainda mais em mormaço, em cheiros, em gente, em sons. Mas só porque o sino cessara.
Cada gente é conduzida ao seu destino que no momento, é o mesmo: comer. E então, todos se tornam humanos.

 

Por Lilian Lima

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Paulistana; gosta de escrever, dias nublados, leituras densas, música, cinema e gastronomia.

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