Literatura Brasileira
TODOS OS CONTOS / CLARICE LISPECTOR

 

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Deslumbrada com Todos os Contos! Lançada no Brasil pela Editora Rocco este ano, a obra traz todos os contos de Clarice Lispector (85 contos) e está lindíssima esta segunda edição (a primeira foi nos EUA). O prefácio e organização, é de Benjamin Moser.

Benjamin Moser é um escritor e historiador estadunidense, que tem estudado e divulgado Clarice Lispector; pois antes de mais nada, parece ser um grande admirador de sua obra, e possuidor de um fascínio pela mulher que foi Clarice. É também autor da biografia Clarice, uma biografia, lançada no Brasil em 2ª edição, pela Cosac Naify em 2015 (a primeira também foi nos EUA).

Podemos dizer que o assunto que marca toda a obra de Clarice, é a mulher. Onde a partir de si mesma, universalizava a essência feminina, talvez sem perceber. Dava voz a tantas Clarices que não ousavam ‘perder o tom’, para uma época em que a mulher ainda estava ‘aprendendo a falar’. Quando escrevia suas angústias, quando escrevia sobre a natureza feminina, os dilemas da mulher mãe, da mulher dona de casa, da mulher estudante, da mulher esposa, da mulher filha, da mulher solitária, da mulher criança, da mulher anciã, da mulher descobrindo a vida, gozando-a e também, se decepcionando com ela.

Talvez a mulher hoje em dia na Literatura, pareça um tema saturado. E dizer que o assunto mais comumente na obra de Clarice é a mulher, pode evocar  comparações precipitadas, remeter sua obra a  ‘estereótipos literários’ sobre o assunto. Principalmente comparações com obras de cunho feminista. Digo isto não de forma a depreciar o gênero mas, simplesmente porque não tem a ver. Mas obviamente, seria um erro cometido por quem ainda não leu a autora. Pois quem já a leu, provavelmente percebeu que Clarice é única em sua abordagem. O assunto era a mulher, mas a mulher ser humano e não somente a mulher enquanto gênero. A mulher era tema, inserida na rotina mortificante do dia a dia e seus dilemas até mesmo em contraposição com o homem, mas Clarice escrevia com tamanha complexidade e profundidade, como se usasse uma lente de macro. Clarice era como um relojoeiro que montava e desmontava relógios raros e complexos. Mesmo as coisas mais corriqueiras da vida, os fatos e coisas mais banais, mais triviais, Clarice as transformava em uma densa exposição sem lamúrias piegas. Era uma artista da escrita.

Mas Clarice não escrevia somente sobre a mulher. Atrás da figura da mulher vinha a ‘revelação’ de suas obras: a dor humana, as injustiças do mundo, a dureza da vida, o desconsolo, a impotência diante do que não se pode mudar, o lidar com a resignação.

Em Todos os Contos, temos sua produção de contos iniciada ainda na adolescência, onde as passagens de ano da autora, os acontecimentos de sua vida, a maturidade e final de vida, se fazem presentes como uma cronologia em que ‘criador e criatura’ se misturam. Ou seja, autora e personagens são reflexos um do outro.c

Clarice não é leitura de entretenimento, tampouco suas obras são dramalhões fáceis e superficiais. Clarice está mais para Kafka, Dostoiévski, escritores da mais consagrada Literatura.

Também, encontramos na escrita de Clarice, um desenvolvimento mental filosófico e psicanalítico porém, instintivo, e não aprendido. Nem mesmo sua escrita foi aprendida, ela simplesmente escrevia e tentava encontrar seu estilo em si mesma. Por isto também, ser singular. O contraditório, é que apesar disto tudo, e da grande fama da autora de ‘hermética’, Clarice hoje é apreciada não somente por intelectuais mas também, por nós leitores comuns que de alguma forma, veem também em sua escrita, a simplicidade. Pois sua escrita também, o é. E isto é o que também a faz tão fascinante e intrigante. Clarice fala com variados tipos de leitores. Como se nos mesmos textos houvessem duas versões de estórias. Mas não, são as mesmas. E cada um enxerga o que lhe cabe enxergar. Porém, a decodificação de seus textos, é inesgotável. Afinal, já não se autodenominava ‘A esfinge’ e para si mesma?

Mas sempre vale a pena decifrar Clarice.

”Era preciso evitar a todo custo que aquela tendência analista, que terminava pela redução do mundo a míseros elementos quantitativos, me atingisse. Precisava reagir. Queria ver se o cinzento de suas palavras conseguia embaçar meus vinte e dois anos e a clara tarde de verão. Decidi-me, disposta a começar no mesmo momento a lutar. Voltei-me para ele, apoiei as mãos no parapeito da janela, entrefechei os olhos e sibilei:
— Essa hora me parece a primeira das horas e também a última!”

Referências

Moser, BENJAMIN. Clarice, uma biografia. São Paulo: COSAC NAIFY, 2011.

http://epoca.globo.com/vida/noticia/2016/05/benjamin-moser-clarice-lispector-e-eu-deciframos-um-ao-outro.html

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About the author

Paulistana; gosta de escrever, dias nublados, leituras densas, música, cinema e gastronomia.

2 Comentários

  1. Chronosfer

    Livro sob – sobre não cabe mais – a mesa à minha espera. O texto da resenha é um ultimato para furar essa espera e começar a ler Clarice o quanto antes. Abraço, Lílian.

    • Lilian Lima

      Não irá se arrepender, Fernando. Clarice é um tesouro. Abraço.

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