Literatura Brasileira
O LIVRO DAS IGNORÃÇAS / MANOEL DE BARROS

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Vejo a poesia como uma arte difícil de se fazer e as vezes, de se entender. É algo mais complexo que o fazer e ler ficção, por exemplo. Para falar de poesia, é preciso ter conhecimento das questões técnicas. Como não domino esta parte, falarei apenas da questão, ‘gosto’.

Particularmente, penso que a poesia deva principalmente alcançar o intocável, o íntimo das pessoas. Mexer com suas emoções. Obviamente não falo de sentimentalismo piegas e superficial mas, de nossas mais profundas emoções. Sem isto, a poesia torna-se apenas uma construção racional, matemática e fria. Há poesias bem construidas onde podemos ver a capacidade mental do poeta porém, não nos desperta absolutamente nada. É como ler um dicionário ou aqueles testes de lógica da tabela verdade. Por outro lado, há poesias tão menos elaboradas no sentido de forma, mas que sua essência entrelaça-se com o espírito humano. Ou seja, sou da opinião que a essência deve sobressair-se à forma.

E quando se fala em ‘espírito do homem’, se fala de coisas universais. Sim, pois há poesias universais, e não universais. Há poesias que são tão próprias, que quase que somente o próprio poeta a entende. Mas fazer ou não poesia universal já é outro assunto.

Mas mencionei isto pois Manoel de Barros foi um poeta que falava do seu habitat, do seu Pantanal. Mas nem por isto, deixou de ser universal. Pois a natureza existe em todo lugar e sua ligação com o homem é inevitável, mesmo para os homens urbanos em qualquer lugar do mundo. Talvez para estes, o ler poesia como a de Manoel de Barros, possa lhe despertar algo perdido. Uma saudade adormecida de um lar onde nunca vivera mas que é seu por nascimento, o solo de terra, a natureza. Como parte dela, o homem não tem como desvencilhar-se deste sentimento nostálgico quando em contato com a natureza, ou quando em contato com poesias como as de Manoel de Barros.

Manoel de Barros nasceu em Cuiabá (1916-2014), estudou em Campo Grande e depois foi para o Rio de Janeiro terminar os estudos, formando-se em direito. Viveu no Rio até os 30 anos de idade. Depois viajou pela Europa, estudou cinema e arte em Noa York e em 1958 voltou para o Pantanal com sua mulher Stella e os três filhos.

No prefácio do livro, o escritor português Valter Hugo Mãe diz dele:

”Manoel de Barros sabe por candura e não por academia. A impressão que tenho é a de que ele mantém um estado de pureza como quem espera milagre. ”Um humilde diante das coisas”, como disse Antônio Houaiss […] O método de Manoel de Barros é o da observação sempre inicial. Cada coisa começa de novo com ele, numa aprendizagem contínua, inesgotável, que recusa as codificações prévias para se situar nessa experiência sempre semelhante à magia que é mais típica da infância. Nesse acontecimento tudo é celebração.

É esta impressão que temos de suas poesias. Alguém em constante deslumbrar pela descoberta e redescoberta das coisas do universo. O criar e o recriar mentalmente suas visões sobre tudo que vive, vê, ouve, e sente. Uma mente para a qual, a rotina não lhe impunha estagnação, tamanha sua capacidade lúdica de pensar e inventar.

Mas suas poesias não só somente lúdicas na maneira de brincar com as palavras. Fosse assim, ficaria apenas na questão da forma que mencionei a princípio. Na poesia de Manoel de Barros tem uma certa melancolia. A melancolia do refletir sobre a existência e a solidão humana.

Um besouro se agita no meu sangue do poente
Estou irresponsável de meu rumo
Me parece que a hora está mais cega
Um fim de mar colore os horizontes
Cheiroso som de asas vem do sul
Eis varado de abril um martim-pescador
(Sou pessoa aprovada para nadas?)
Quero apalpar meu ego até gozar em mim
Ó açucenas arregaçadas
Estou só e socó

Por mais que alguém não saiba o que seja um martim-pescador, uma açucena ou o que quer dizer socó. O sentido do poema não se perde. Um homem sem rumo admirando o horizonte e que chega a conclusão: estou só.

Ando muito completo de vazios
Meu órgão de morrer me predomina
Estou sem eternidades
Não posso mais saber quando amanheço ontem
Está rengo de mim o amanhecer
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha
Atrás do ocaso fervem os insetos
Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu destino
Essas coisas me mudam para cisco
A minha independência tem algemas

Manoel de Barros não fala da natureza no sentido de apenas louvá-la. Ele não é um mero expectador. Ele faz-se um com ela e nela desagua suas questões existenciais:

”Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu destino”

Isto nos remete ao poeta pensando na existência enquanto observa ou ouve um grilo estrilando. Como se dissesse: fiquei parado pensando na vida, trocando considerações com o estrilar do grilo. Mas o que o estrilar do grilo poderia lhe dize sobre o destino do poeta?

Mas, o grilo é ele mesmo. Está dentro dele. Sua consciência.

Enfim, poesias são sempre subjetivas e o exercício de tentar compreendê-las e explicá-las, também. Cada um terá uma perspectiva (ou não), e isto, também é uma das riquezas da arte da Poesia.

A poesia de Manoel de Barros, a propósito, é riquíssima.

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About the author

Paulistana; gosta de escrever, dias nublados, leituras densas, música, cinema e gastronomia.

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