Literatura Brasileira
QUINCAS BORBA / MACHADO DE ASSIS

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Da série ”Lendo e relendo Literatura Brasileira”.

No Brasil, a Literatura Brasileira faz parte das grades de matérias escolares, ao menos do ensino médio (vestibulares e outros testes, também). Mas é tão comum ouvir dos estudantes que a Literatura Brasileira do período Romântico, é chata! Eu mesma confesso que não gostava do que tinha de ler no colégio. Machado de Assis era um deles. Que sacrilégio!

É comum a opinião de que a rejeição as estas obras, talvez seja pela imposição da leitura. Outros, acham estas obras difíceis. Talvez também, porque até recentemente, adolescentes e jovens de uma forma geral, não eram muito dados à Literatura. Algo que tem mudado nos últimos tempos. A impressão  (mesmo com dados de que o Brasil é um país que lê pouco), é cada vez maior o número de jovens, adolescentes e até crianças, lendo. Porém, mesmo com a mudança deste quadro, a Literatura Brasileira do período Romântico, ainda parece sofrer certa resistência para determinadas idades.

O mais comum acontecer, e isto é uma impressão também, não só por experiência própria mas também de outros casos que conheço, é que esta Literatura Brasileira termina por ter de ser redescoberta. Não que quem não goste do período Romântico, irá passar a gostar do estilo mas, a valorização e a melhor compreensão da grandeza de nossos escritores e de nossa Literatura, é comum acontecer um pouco mais tarde. Mas antes tarde, do que nunca! Já diz o ditado. Redescobrir Machado de Assis, tem sido uma experiência única.

Mas vamos à resenha de Quincas Borba! E embora o título da obra seja Quincas Borba, a estória  tem como personagem principal, Rubião.

A estória começa não linear, com Rubião já rico; pois herdara a herança de seu amigo filósofo, Quincas Borba; o qual adoecera (enlouquecera) e viera a falecer. Rubião, que era um matuto e limitado professor em Barbacena, cuidou do amigo até sua morte e por isto, herdou sua herança. Um único critério foi posto em testamento, para que Rubião herdasse toda fortuna: cuidar do cachorro do falecido. O também nomeado tal qual o dono: Quincas Borba.

”No dia seguinte, Quincas Borba acordou com a resolução de ir ao Rio de Janeiro, voltaria no fim de um mês, tinha certos negócios… Rubião ficou espantado. E a moléstia, e o médico? O doente respondeu que o médico era um charlatão, e que a moléstia precisava espairecer, tal qual a saúde. Moléstia e saúde eram dois caroços do mesmo fruto […] Quincas Borba chorava pelo outro Quincas Borba. Não quis vê-lo à saída. Chorava deveras; lágrimas de loucura ou de afeição, quaisquer que fossem, ele as ia deixando pela boa terra mineira, como o derradeiro suor de uma alma obscura, prestes a cair no abismo”

Mas embora a menção do defunto permeia todo o livro, assim com a existência do cachorro, ambos são apenas pano de fundo. A estória mesmo se concentra na pessoa de Rubião e no casal Palha (Sofia e Cristiano).

Rubião, ao herdar a fortuna, decide morar no Rio de Janeiro, almejando ser um homem da Corte, uma figura importante, talvez. Rubião, tem os deslumbres típicos de gente simples, em se sentirem importantes na vida. Vaidades ingênuas, que muitas vezes servem apenas para os mais espertos tirarem proveito destas ilusões. São iludidos principalmente pelos sentimentos, pois a estes, a amizade, o estreitamento das relações, sempre são laços de sinceras estimas mutuas, e de confiança. Fiam-se em uma palavra dada, um sorriso carismático, um olhar entusiasmado, um forte aperto de mão. Um fio de bigode. E é justamente tudo isto que ocorre com Rubião quando este vai para a cidade do Império e já logo no trem, conhece o casal Palha.

”Na estação de Vassouras, entraram no trem Sofia e o marido, Cristiano de Almeida e Palha. Este era um rapagão de trinta e dois anos; ela ia entre vinte e sete e vinte e oito anos. Vieram sentar-se nos dois bancos fronteiros ao de Rubião […] Depois que o trem continuou a andar, foi que o Palha reparou na pessoa do Rubião, cujo rosto, entre tanta gente carrancuda ou aborrecida, era o único plácido e satisfeito. Cristiano foi o primeiro que travou conversa […] Sofia escutava apenas; movia tão somente os olhos, que sabia bonitos, fitando-os ora no marido, ora no interlocutor.”

Mas antes de continuar com o enredo, devo mencionar que tenho para mim, que Machado de Assis era um Romântico com um pé no Modernismo. Suas estruturas desregradas, seus elementos levemente transgressores para uma época em que haviam tabus, seus narradores fora de padrões, suas tramas um tanto frouxas, sem a obrigação de amarrar, definir todos os pontos, as narrações não lineares, finais um tanto abertos, nos fazem deslumbrar um Modernista.

Nesta obra por exemplo, o drama psicológico também é outra característica modernista. Rubião acaba por enlouquecer. Também, assim como as questões políticas sempre presentes em suas obras, ela são abordadas não da forma Romântica mas,  permeadas de certa crítica, ironias e sarcasmos, embora que levemente. Além claro, da rica construção dos personagens. Principalmente de suas personalidades. Geralmente ambíguas.

Sofia, por exemplo, mulher do Palha, por quem Rubião se apaixona logo no trem ao conhece-la. Uma mulher que ora nos parece uma, ora no parece outra. Suas atitudes e intenções nos confundem. Deixam o leitor na corda bamba em saber o que quer esta mulher, ou melhor, quem de fato é Sofia.

Assim como Palha, seu marido. Tão amigo de Rubião, nem se enciumara da mulher lhe contar da declaração que Rubião lhe fizera. Ao contrário, parece cada vez mais amigo de Rubião, pronto a ajudar-lhe e orientar-lhe como advogado que é. Cuidou de tudo para ele na ocasião do recebimento da herança e logo a principio nos colocamos a desconfiar do homem. Mas a estória vai passando-se e nada de Palha lesar Rubião. Ao contrário, Rubião mesmo quem vai se lesando, distribuindo sua fortuna a quem precise com seu bom coração mas também, com sua falta de prudência. O que Palha sempre lhe adverte, já que terminam por serem sócios em alguns negócios.

Mas as suspeitas sobre quem são Sofia e Palha permanecem, pois Machado de Assis faz um jogo narrativo a nos confundir (não somente com estes dois personagens). São mocinhos? São vilões? São anti-heróis? Incrivelmente, Machado de Assis constrói personagens que não nenhuma destas três coisas. São personagens que vivem conforme os modos sociais vigentes mandam.

Rubião sim, é um anti-herói do começo ao fim, sem nenhum jogo narrativo do autor. Anti-herói porque possui ‘pecados’ e ‘virtudes’. É gente verdadeira sem máscaras. Peito aberto sem os pós-de-arroz sociais. Embora ele almeje se maquiar imitando-lhes o que não é.

Rubião é um contraste com os outros personagens. Tão ingênuo e bondoso que chega a ser burro. Sim, pois no mundo dos espertos, ser um homem bom, é ser um homem burro. Quando Rubião enlouquece, seus devaneios nos lembra Dom Quixote. Mas assim como em Dom Quixote, todos seguem suas vidas na aspiração de suas conquistas usando dos costumes vigentes. Cascas vazias. Travando relações por interesse, escalando a vida usando outros como escada.

Aqui parece resumir a crítica de Machado de Assis nesta Obra. Os personagens que a tudo fazem pelos seus anseios, são normais. Rubião, nosso Dom Quixote matuto, é louco.

E por louco, termino a resenha citando uma passagem inicial do personagem filósofo Quincas Borba, ainda vivo, falando à Rubião:

— Bem, irás entendendo ao poucos a minha filosofia; no dia em que a houveres penetrado inteiramente, ah! Nesse dia terás o maior prazer da vida, porque não há vinho que embriague como a verdade. Crê-me, o Humanitismo é o remate das coisas; e eu, que o formulei, sou o maior homem do mundo. Olha, vês como o meu bom Quincas Borba está olhando para mim? Não é ele, é Humanitas…
— Mas que Humanitas é esse?
— Humanitas é o princípio. Há nas coisas todas certa substância e idêntica, um princípio único, universal, eterno, comum, indivisível e indestrutível, ou, para usar a linguagem de Camões:
Uma verdade que nas coisas anda
Que mora no visível e invisível
Pois essa substância ou verdade, esse princípio indestrutível é que é Humanitas. Assim lhe chamo porque resumo o universo, e o universo é o homem. Vais entendendo?

 

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About the author

Paulistana; gosta de escrever, dias nublados, leituras densas, música, cinema e gastronomia.

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