Literatura Tcheca
A METAMORFOSE / FRANZ KAFKA

 

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Quando pensamos em metamorfose, tendemos a pensar em uma mudança positiva. Como a mudança do estado de lagarta para borboleta, por exemplo. Embora seja um ponto de vista discutível, por ser subjetivo. Porém, a maioria das pessoas concordarão que visualmente, uma borboleta pareça ser muito mais apreciável do que uma lagarta.

Mas em A Metamorfose, do escritor tcheco de língua alemã Franz Kafka (1883-1924), o protagonista da estória Gregor Samsa, sofre uma metamorfose que pode ser encarada como negativa, pois ao acordar num belo dia, se vê metamorfoseado em uma barata.

O interessante da estória, além desta transformação surreal do personagem, é a capacidade sensorial do texto, mesmo a narração sendo onisciente. O acompanhar o estado de espírito do personagem, e o agonizar juntamente com ele na adaptação à sua nova realidade. Primeiramente, com seu choque; depois, com sua negação que segue evoluindo para uma lenta e penosa aceitação; embora o texto seja curto, pois trata-se de uma Novela. E esta é foi uma das maestrias de Kafka neste texto. Compactar um processo longo e penoso em uma estória curta sem que se perca sua dimensão.

A transformação de Gregor Samsa em uma barata e seu processo em lidar com esta transformação alheia a sua vontade (o que nos parece em princípio), é uma perfeita alegoria do processo humano em adaptar-se forçosamente a uma situação. A calamidade de Gregor Samsa no caso acontece dentro de sua casa, dentro de seu quarto, dentro de si mesmo. O que se passa com ele? Com sua família? Com o mundo externo com o qual ele tem de interagir?

Ao princípio, ele tem um desafio: levantar-se para ir ao trabalho. Mas não consegue. Como lidar com aquele novo corpo que ele não domina? As perninhas; o ‘ventre abaulado’; um casco nas costas? Não. Seu cérebro não sabe como usar seu novo corpo para levantar-se da cama.

”Por mais força que fizesse na tentativa de se jogar para o lado direito, balançava voltando sempre a fiar na posição de costas. Deve ter tentado fazê-lo cerca de cem vezes; fechou os olhos a fim de não precisar ver mais suas pernas se debatendo”

Mas ele quer mesmo levantar-se da cama? Gregor afligi-se em levantar-se logo para ir à seu trabalho. Mas é um trabalho do qual ele não gosta.

”Oh, Deus”, pensou ele, ”que profissão extenuante que fui escolher! Entra dia, sai dia, e eu sempre de viagem. As agitações do negócio são muito maiores do que propriamente o trabalho em casa, e ainda por cima impuseram sobre mim essa praga de ter de viajar, os cuidados com as conexões de trem, a comida ruim e desregulada, contatos humanos sempre cambiantes, que nunca serão duradouros e jamais afetuosos. Que o diabo leve tudo isso!”

Daí começar a fazer sentido seu estado. Pois ainda que ele não estivesse metamorfoseado fisicamente em uma barata, seu estado de espírito é como tal. A descrição acima sobre o seu trabalho, pode muito bem encaixar-se com a existência de uma barata. Um ser que não tem propriamente um lar, a espantam para lá e para cá, come restos de comida (e quando a encontra). O contato com humanos é sempre conturbado.

Em um segundo momento, seu gerente aparece na casa devido ao seu atraso na empresa, e faz coro com a família de Gregor na preocupação do que estaria acontecendo com ele trancado no quarto; pois além de não ter ido trabalhar, não abre a porta. E embora na mente de Gregor, ele julga que esteja expressando sua fala normalmente, conforme determina seu raciocínio, sua voz aos outros é ininteligível.

”— Entenderam uma única palavra? – perguntou o gerente aos pais. — Será que ele não está querendo nos fazer de bobos? […] — Era uma voz de animal – disse o gerente…”

Estes são momentos em que a agonia tanto do personagem quanto de quem lê a estória, chega ao ápice. Gregor tem seus pensamentos muito claros para si mesmo e os transmite porém, não tem ideia de que não está se fazendo entender aos que estão do outro lado da porta, em aparente preocupação. Em contrapartida, Gregor a tudo ouve do que falam dele. A pressão do pai para que abra a porta, o desespero da mãe e as súplicas da irmã; também,  as reclamações do gerente que na opinião de Gregor, são injustas e ingratas. Uma alegoria da completa impotência. Ele está acuado, preso em uma situação da qual não tem controle; raciocina, porém é como se não tivesse voz; em um mundo onde a palavra falada, tem um poder inominável. Mas, o poder da palavra, é um poder conquistado (por vezes, imposto). Deram-lhe a chance de falar porém, o que ele diz não faz sentido aos demais.

A terceira parte, é um momento mais intimista da família. Quando Gregor se vê a sós com ela já com seu problema revelado. Aqui é colocado uma atenção nas questões familiares onde pontos profundos são tratados; embora de forma sutil , mas não imperceptível.

Há algumas teorias de estudiosos de Kafka, sobre estes pontos da estória. No próprio rodapé do livro, traz algumas destas teorias como: a questão da repulsa pelo pai; incesto, paixão pela irmã; e complexo de Édipo.

Após a soma destes fatores, a figura da barata toma um outro aspecto: o de auto-punição em Gregor; ao aceitar tudo que lhe aconteceu e tudo que lhe passa a acontecer.  E para o leitor, a barata passa a ser não somente uma figura de linguagem para a impotência do personagem diante de sua vida, tampouco uma calamidade alheia a sua vontade mas, um quadro geral para uma metamorfose intencional (ainda que inconsciente num primeiro momento).

”o pai havia se decidido a bombardeá-lo. Da fruteira sobre a credência ele havia enchido os bolsos e arremessava as maçã uma a uma […] Outra, que foi atirada logo a seguir, pelo contrário literalmente penetrou nas costas de Gregor […] O grave ferimento de Gregor, que o fez sofrer por mais de um mês – a maçã ficou, uma vez que ninguém teve coragem de retirá-la, alojada na carne como recordação visível […] E mesmo que Gregor agora tivesse perdido, provavelmente para sempre, alguns de seus movimentos por causa da ferida, e de momento se comportasse como um velho inválido ao atravessar seu quarto, necessitando longos, longos minutos para fazê-lo – em rastejar para o alto não se podia nem sequer pensar -, ele acabou recebendo, segundo sua opinião, uma compensação inteiramente satisfatória para a piora de seu estado; a porta da sala, que antes ele ja cuidava observar com atenção durante duas ou três horas, agora era aberta todas as noites […] invisível para quem estivesse na sala, podia ver a família inteira reunida em volta da mesa iluminada…”

As coisas mais importantes para Gregor são justamente as que ele não tem. Um emprego onde ele se realize, seja feliz, e uma família onde seu posto de membro é garantido. Pois Gregor é, e ao mesmo tempo não é, um membro de sua família, embora o sustento desta até então fosse de sua responsabilidade. Este distanciamento da família, também é detonado na própria escrita do autor quando o personagem usa os termos ‘o pai’, ‘a mãe’ e ‘a irmã’ e não, ‘meu pai’, ‘minha mãe’ e ‘minha irmã’.

A Metamorfose é daquele tipo de Literatura que usa da ficção para tocar na realidade. Gregor Samsa debateu-se consigo mesmo. Metamorfoseando-se em um inseto ferido, no quarto de sua mente.

 

 

 

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About the author

Paulistana; gosta de escrever, dias nublados, leituras densas, música, cinema e gastronomia.

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