Literatura Portuguesa
O REMORSO DE BALTAZAR SERAPIÃO / VALTER HUGO MÃE

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Prêmio Literário José Saramago 2007, O Remorso de Baltazar Serapião de Valter Hugo Mãe, um escritor português nascido na Angola, é um livro que pode soar estranho à leitores que evitam conhecer o lado bestial do ser humano. Quando ganhei o livro de uma amiga, não tinha ideia do que tratava-se o enredo porém particularmente não fujo de leituras do tipo.

O Remorso de Baltazar Serapião é uma obra que adentra um mundo fictício que passa-se na Idade Média. Mas o único indício no enredo de que trata-se desta época, é por uma personagem ser vista como bruxa; a qual fora queimada enquanto pessoas assistiam sua punição, e ficara desfigurada. Mas esta é uma personagem secundária.

O livro apresenta como enredo principal, a vida de uma família: os Serapiãos. Porém, eles não são conhecidos por este sobrenome e sim, ‘os Sargas’. Um apelido provindo do nome da pobre vaca de estimação da família; da qual corre-se o boato que parira os três filhos do casal.

É uma obra que trata da superstição exarcebada, da anulação dos indivíduos na sociedade, e do machismo legitimado por homens que se veem instrumentos nas ‘mãos de deus’ para purificar as mulheres com punições que vão desde a desfiguração até a morte. Um universo onde a mulher é tida como um ser inferior, fútil, de pensamentos abobalhados que podem levar à ruína os homens. O que eu chamaria de ‘síndrome de Adão’.

‘a voz das mulheres estava sob a terra, vinha de caldeiras fundas onde só diabo e gente a arder tinham destino. A voz das mulheres, perigosa e burra, estava abaixo de mugido e atitude da nossa vaca, a Sarga, como lhe chamávamos.’

A narração é em primeira pessoa, o personagem Baltazar; um dos filhos (o mais velho) do casal de idosos. Sua narração é sobre sua família (pais e irmãos). Uma família humilde que ao que parece, vive em uma espécie de feudo, trabalhando nas terras de um tal senhor Afonso. Posteriormente, após casar-se, irá também discorrer sobre sua vida conjugal com sua jovem linda e meiga esposa, Ermesinda.

No trecho abaixo vemos um exemplo do que mencionei sobre a questão da anulação do indivíduo, pois se o servo tem o mesmo nome do senhor, ele não é digno de ser chamado pelo mesmo nome. À ele, coube ser chamado de Sarga (o dos Sargas, parente da vaca Sarga).

‘o meu pai pagava ainda a ousadia de se chamar Afonso. Afonso segundo um rei, mas sobretudo em semelhança ao senhor da casa a que servíamos. Uma ousadia disparatada, um Sarga chamado Afonso, um verdadeiro familiar da vaca como se viesse de rei.’

Ou seja, o próprio Baltazar acha um disparate seu pai ter o mesmo nome do senhor para quem trabalham. Como se na vida, todos já estivessem destinados a uma condição e nem o próprio nome lhe fosse de direito usar.

A linguagem que valter hugo utiliza, nos dá impressão de arcaica e roceira; onde o narrador descreve a tudo com naturalidade, com uma musicalidade matuta. Que é grotesca e ao mesmo tempo, soa como poesia. Mas uma poesia bizarra, que nos choca enquanto avançamos na leitura pois não há praticamente nada de poético na estória.

Baltazar tanto discorre sobre as coisas íntimas  da vida familiar, quanto de sua visão de mundo e existência. Para ele, tudo que nos parece bizarro, a ele parece natural; sem que se possa haver mudança a não ser, quando refere-se à sua honra masculina. A ele por exemplo, parece natural que sua irmã Brunilde fora dada pela família à viver na casa do senhor aos doze anos de idade para servir àquela casa com trabalhos domésticos mas também, com favores sexuais ao senhor da casa.

‘quando os senhores a levaram, foi Dom Afonso quem disse que era moça de valentia, haveriam de lhe dar aconchego nos afazeres, e só quando fortalecemos o tronco […] e falso seria porque o tronco não se fortalecesse. Eu percebera muito antes de que mo dissesse, era para que se conservasse boa de aparências, com a pele clara e as mãos ágeis, assim a queria o senhor para as sevícias que lhe davam a ele, a se esfregar-se e a meter-se nela pelos cantos da casa, a tentar retribuir-se de tudo o que a Dona Catarina, velha de carnes, descaída e dada à maleitas, já não lhe oferecia […] és uma servente de sorte dizia-lhe eu, aberta assim ao meio por um velho tonto de amor’

Para ele, parece natural a atrocidade que seu pai fez à sua mãe, deixando-a aleijada de um pé, à fim de domá-la e por fim, lhe fazendo atrocidade maior. Como também, para ele parece natural deformar sua linda mulher pouco a pouco por ciúmes.

‘que pena se estropiasse tão nova e depressa como foi chegada à vida do casamento. Como eu preferiria que a mantivesse perfeita, para num todo me atrair de fantasias. Mas poupá-la da morte era o único que me permitia, tão louco de paixão estava, tão grande amor lhe tinha, não poderia matá-la. De outro modo acabaria também de remorsos.’

Mas a passividade e a submissão feminina talvez sejam as coisas mais estarrecedoras na estória do que os atos cometidos. Percebemos duas mentes cativas, acostumadas com uma ‘normalidade’; agindo e reagindo conforme ‘deve ser’.

É uma estória que se passa na idade média mas infelizmente ela poderia passar-se por qualquer época inclusive, a atual. Visto que tais coisas ainda acontecem no mundo. Sempre é tempo do ser humano ser uma besta.

Algumas coisas não são esclarecidas no enredo e o final é bem aberto. Um livro para se refletir.

 

 

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About the author

Paulistana; gosta de escrever, dias nublados, leituras densas, música, cinema e gastronomia.

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