Literatura Brasileira
ESAÚ E JACÓ / MACHADO DE ASSIS

Machado-de-Assis

 

Esaú e Jacó é o penúltimo romance de Machado de Assis, lançado em 1904. Segundo estudiosos, um romance que destoa em estilo das outras obras do autor por não apresentar um enredo propriamente; e ter uma narrativa alegórica.

Narrada em primeira e terceira pessoa, a obra apresenta a estória de dois irmãos gêmeos que passam a vida em disputas diversas. Neste ponto, uma alegoria dos personagens bíblicos pelos quais a obra é intitulada: Esaú e Jacó. Porém, os personagens chamam-se Pedro e Paulo. O que não deixa de ser outra alegoria bíblica pois Pedro e Paulo eram apóstolos, e também personagens que se contenderam. De qualquer forma, personagens representantes de uma ideia, de um ‘governo’ porém, cada qual com estilos diferentes.

Mas os personagens de Machado de Assis são rivais desde criança. De família influente e metida na política, desde cedo os pequenos irmãos já tem cada qual suas preferências neste sentido. Pedro, é monarquista e representa o conservadorismo. Irá forma-se em medicina no Rio de Janeiro. Paulo é um defensor apaixonado da república. Tem um espírito revolucionário e inovador e forma-se em direito em São Paulo. Aqui talvez uma escolha propositada do autor já que o Rio de Janeiro era a sede da Monarquia e São Paulo, o lugar onde as ideias republicanas estavam a todo vapor. Além do que, Medicina é uma profissão tradicional e Direito, ainda estava em iniciação no Brasil àquela época de transição da Monarquia para República.

Naquele ano, uma noite de agosto, como estivessem algumas pessoas na casa de Botafogo, sucedeu que uma delas, não sei se homem ou mulher, perguntou aos dois irmãos que idade tinham.
Paulo respondeu:
— Nasci no aniversário do dia em que Pedro I caiu do trono.
E Pedro:
— Nasci no aniversário do dia em que Sua Majestade subiu ao trono.
As respostas foram simultâneas, não sucessivas, tanto que a pessoa pediu-lhes que falasse cada um por sua vez. A mãe explicou:
— Nasceram no dia 7 de abril de 1870.
Pedro repetiu vagarosamente:
— Nasci no dia em que Sua Majestade subiu ao trono. E Paulo, em seguida:
— Nasci no dia em que Pedro I caiu do trono.
Natividade repreendeu a Paulo a sua resposta subversiva. Paulo explicou-se, Pedro contestou a explicação e deu outra, e a sala viraria clube, se a mãe não os acomodasse por esta maneira:
— Isto hão de ser grupos de colégio; vocês não estão em idade de falar em política. Quando tiverem barbas.
Na juventude dos dois irmãos gêmeos, além da disputa política acirrada, Pedro e Paulo disputam o amor da mesma mulher: a jovem Flora. Esta por sua vez, vive o dilema de amar os dois. Sem saber a quem escolher.

Da jovem Flora, não conseguimos extrair muito de sua personalidade a não ser, o que o narrador nos diz: ”é uma criatura inexplicável.” Aliás, um dos narradores é um dos personagens, um diplomata de nome Aires, à quem os mais próximos sempre lhe recorrem para se aconselharem. Uma figura emblemática na obra à quem seria necessária uma resenha à parte.

Num destes episódios de aconselhamento, um caso que parece simples mas carregado de simbolismo, é o caso da tabuleta (letreiro) da confeitaria do personagem Custódio. Ele manda fazer uma nova e neste interim, a Monarquia é derrubada e instalada a República. O conselho solicitado ao Aires, era em como ele chamaria sua confeitaria visto que até então todos a conheciam por Confeitaria do Império.

Na véspera, tendo de ir abaixo, Custódio foi à Rua da Assembléia, onde se pintava a tabuleta. Era já tarde; o pintor suspendera o trabalho. Só algumas das letras ficaram pintadas, — a palavra Confeitaria e a letra d. A letra o e a palavra Império estavam só debuxadas a giz. Gostou da tinta e da cor, reconciliou-se com a forma, e apenas perdoou a despesa. Recomendou pressa. Queria inaugurar a tabuleta no domingo.
Ao acordar de manhã não soube logo do que houvera na cidade, mas pouco a pouco vieram vindo as notícias, viu passar um batalhão, e creu que lhe diziam a verdade os que afirmavam a revolução e vagamente a república. A princípio, no meio do espanto, esqueceu-lhe a tabuleta. Quando se lembrou dela, viu que era preciso sustar a pintura. Escreveu às pressas um bilhete e mandou um caixeiro ao pintor. O bilhete dizia só isto: “Pare no D.” Com efeito, não era preciso pintar o resto, que seria perdido, nem perder o princípio, que podia valer. Sempre haveria palavra que ocupasse o lugar das letras restantes. “Pare no D”.

Em suma, uma obra que fala de perspectivas políticas sem que o leitor se dê muito conta; pois o assunto é tratado de forma alegórica e com um certo distanciamento do autor. Até mesmo o triângulo amoroso que parece ser a trama principal, também parece ser uma das alegorias; onde a disputa dos dois irmãos por Flora, representaria também a disputa por um regime político.

É um romance atemporal. Duas partes contrárias em pé de guerra por um sistema político onde independente de sua forma de governo, sua maneira de governar, seus governantes e a forma com que lidam com seus governados, não muda.

 

 

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About the author

Paulistana; gosta de escrever, dias nublados, leituras densas, música, cinema e gastronomia.

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