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Arte, poder e sobrevivência: os poetas luso-brasileiros do Brasil Colonial e a arte de bajular a Coroa.
cervantes

Estátua de Cervantes em Alcalá de Henares, Espanha.

Era uma prática dos primeiros poetas do Brasil Colonial bajular autoridades com poemas e assim, obter qualquer benefício que fosse de poderosos e até mesmo da Coroa.

O primeiro poema registrado neste aspecto (pois a produção literária desta época no geral não fora registrada), foi o poema ‘Prosopopéia’ de Bento Teixeira em louvor ao Jorge d’Albuquerque Coelho; naquela altura, governador da Capitania de Pernambuco. Outro exemplo mais tarde, foi Basílio da Gama; que acusado de ser ex-jesuita quando vivendo em Portugal, safou-se de ser desterrado para Angola fazendo um poema de casamento para a filha de ninguém menos que o Marquês de Pombal, ‘o caçador de jesuítas’, ministro de D. José I.

Mas este tipo de flerte entre artistas e o poder sempre existiu nas artes de um modo geral. Ainda neste tocante, mais comumente no Renascimento, havia o mecenato, por exemplo. Onde os burgueses financiavam artistas para que produzissem. Obviamente, o lado ruim era que muitas vezes o artista não tinha total liberdade de criação, uma vez que seus trabalhos eram sob encomenda.

Voltando aos poetas do Brasil Colonial, eles poetavam mas não viviam disto. Tinham outras profissões onde muitas vezes estas foram alcançadas através da prática de poetar para os poderosos.

Dois séculos se passaram do Brasil Colonial e por uma ironia nada poética, três poetas pagaram alto preço justamente por causa de alguns poemas. Pois quando ainda nem se davam conta, já cantavam a Independência do Brasil. Não que estes não chegaram a bajular poderosos mas quando começaram a poetar com sentimento nacionalista, a rainha não gostou, claro. São os poetas inconfidentes Cláudio Manuel da Costa, que suicidou-se na prisão (há quem diga, que fora assassinado); Inácio José de Alvarenga Peixoto, que foi deportado para Angola e morreu doente por lá e Tomás Antonio Gonzaga, quem obteve menos rigor em sua pena. Cumpriu 10 anos de prisão em Moçambique mas conseguiu exercer altos cargos para a Coroa neste período. Tomás Antonio Gonzaga é considerado o poeta mais proeminente deste período. Um dos melhores escritores de sua época.

Mas podemos considerar que durante toda a História, nem todo artista se valera de troca de favores; pelo contrário, alguns usaram da arte justamente contra os governos em certas alturas, sendo presos ou mortos. E ainda nesta questão estrita da sobrevivência, em certos períodos haviam artistas que não tinham nenhum financiamento e então não conseguiam sustentar-se morrendo na miséria por não terem ou não saberem outro ofício. Enfim, extremos péssimos para o artista.

Bibliografia

  • VERÍSSIMO, José. História da Literatura Brasileira. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional. 1915.
  • PROENÇA, Graça: História da Arte. São Paulo: Editora Ática. 2014. 

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Paulistana; gosta de escrever, dias nublados, leituras densas, música, cinema e gastronomia.

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