Livros de Estudos
Gregório de Matos. O ‘boca do inferno’ – HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA / PARTE III –

O poeta ‘português baiano’ devasso e desbocado do período Barroco do Brasil Colonial.

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Gregório de Matos (1636-1696)

Antes de continuar mais uma das resenhas da obra História da Literatura de José Veríssimo, devo dizer que quem leu as resenhas anteriores já deve ter reparado que José Veríssimo não poupa ninguém. E confesso que tenho tentado amenizar seu tom nas resenhas. Sua crítica é rigorosa e não deixa escapar nem os grandes nomes dos primeiros poetas/escritores do nosso Brasil Colonial. Até porque sua obra é baseada em outros estudos igualmente profundos, como citei no primeiro post. Nem mesmo Gregório de Matos, tido como o maior poeta satírico português (ou luso-brasileiro como eram denominados os que nasciam nesta época antes da Independência do Brasil), saiu ileso das duras críticas.

Em tempos tão estranhos como os nossos, sinto-me de repente impelida a pedir desculpas por alguma coisa escrita mas, devo dizer que esta obra é um estudo, esta obra é História e desta, não temos como fugir. Dito isto, vamos à III parte da resenha que já nem sei quantas partes mais terá, visto que são tantos os assuntos nela contidos. Mas procurarei reduzi-las ao máximo.

O poeta fanfarrão

Gregório de Matos, nasceu em Salvador e faleceu em Recife. Porém, vivera em Portugal a maior parte de sua vida. Como na maioria das famílias abastadas da época, os primeiros estudos de seus filhos eram iniciados nos colégios jesuítas e depois eles eram enviados à Portugal (principalmente) para formar-se. Gregório de Matos estudou em Senador Canedo no Colégio dos Jesuítas na Bahia e continuou os seus estudos em Lisboa, na Universidade de Coimbra. Formou-se em cânones, foi nomeado juiz de fora de Alcácer do Sal depois de atestar seu “puro de sangue”, como determinavam as normas jurídicas de Portugal àquela época. Representou a Bahia nas Cortes de Lisboa, onde o Senado da Câmara da Bahia outorgou-lhe o cargo de procurador. Porém, foi destituído do cargo.

Os motivos da destituição não são precisos na obra de José Veríssimo mas o estudioso acredita que tenha sido devida a escrita satírica de Gregório Matos – que não poupava ninguém -, pela qual, daquele episódio em diante, ‘pagaria altos preços’.

De volta ao Brasil, foi nomeado tesoureiro-mor da Sé. Mas também foi destituído do cargo por não querer usar batina, além de não acatar ordens dos superiores eclesiásticos e não estar apto para as funções devida sua vida dissoluta e boemia. Por não poupar nem a Igreja Católica em suas críticas (isto em plena Inquisição), lhe alcunharam de boca do inferno. 

Soneto a Nosso Senhor
Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,
Da vossa alta clemência me despido;
Porque quanto mais tenho delinquido
Vos tem a perdoar mais empenhado 
Se basta a voz irar tanto pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido:
Que a mesma culpa que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.
Se uma ovelha perdida e já cobrada
Glória tal e prazer tão repentino
Vos deu, como afirmais na sacra história.
Eu sou, Senhor a ovelha desgarrada,
Recobrai-a; e não queirais, pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.

Poema erótico

Necessidades Forçosas da Natureza Humana
Descarto-me da tronga, que me chupa,
Corro por um conchego todo o mapa,
O ar da feia me arrebata a capa,
O gadanho da limpa até a garupa.
Busco uma freira, que me desemtupa
A via, que o desuso às vezes tapa,
Topo-a, topando-a todo o bolo rapa,
Que as cartas lhe dão sempre com chalupa.
Que hei de fazer, se sou de boa cepa,
E na hora de ver repleta a tripa,
Darei por quem mo vase toda Europa?
Amigo, quem se alimpa da carepa,
Ou sofre uma muchacha, que o dissipa,
Ou faz da mão sua cachopa.

Como não adaptara-se ao Brasil, à Bahia, cidade onde nascera, por ter chego aqui  e não sentir-se acolhido e tratado à ‘sua altura’ como esperava, odiou a toda a gente e passou a fazer poemas de troças à terra e aos baianos. Poemas satíricos por muitas vezes carregadas de preconceitos raciais e sociais. Acabou por ser também odiado, vivendo em um continuo trocar de farpas com àquela sociedade. Num destes episódios, onde atingira autoridades com seus poemas, chegou a ser expulso do Brasil, à viver em Angola. Quando perdoado, voltara e morrera de uma moléstia adquirida por lá.

Não sei para que é nascer
Neste Brasil empestado
Um homem branco e honrado
Sem outra raça.
Terra tão grosseira e crassa
Que a ninguém se tem respeito
Salvo se mostra algum jeito
De ser mulato!

Sobre seu orgulho ferido de doutor fidalgo no Brasil:

Era eu em Portugal Sábio, discreto, entendido,
Poeta melhor que alguns
Douto como os meus vizinhos.
E chegando a esta terra Logo não fui nada disto
Porque um direito entre tortos
Parece que anda torcido.

O Grupo Baiano

Na segunda resenha que fiz de História da Literatura Brasileira, menciono que Pernambuco foi a primeira capitania mais civilizada que apareceu no período colonial e o poema Prosopopeia de Bento Teixeira, foi a marca maior deste período. Em seguida de Pernambuco, quem se destacou até mesmo superando Pernambuco, foi a Bahia.

Nesse momento também a Bahia, a cidade do Salvador e a sua comarca, berço da civilização brasileira, pátria e domicílio desses poetas, crescera e se desenvolvera, avantajando-se a todos os respeitos aos demais centros de população da colônia. A crer os cronistas coevos, propensos aliás todos, pois que o hiperbólico e o pomposo estavam na feição do tempo, ao exagero, era a cidade, desde o primeiro século da sua fundação, uma povoação adiantada, de muita comodidade e riqueza. “A Bahia é a cidade de El-Rei e a Corte do Brasil” — escrevia o padre Fernão Cardim, já em 1585.

Porém, José Veríssimo a todos os poetas baianos deste período, credita também, a mediocridade. Os que ainda tiveram algum destaque, são citados. Faz uma distinção apenas de Botelho de Oliveira e somente por causa de um poema específico: Ilha da Maré. E não pela qualidade do poema em si mas, pela evidência de um despertar para um sentimento nacionalista.

 São eles, por ordem de nascimento: Bernardo Vieira Ravasco (1617-1697), irmão do padre Antônio Vieira; Frei Eusébio de Matos (1629-1692); Domingos Barbosa (1632-1685); Gonçalo Soares da França (1632-1724?); Gregório de Matos, irmão de Eusébio (1633-1696); Manoel Botelho de Oliveira (1636-1711); José Borges de Barros (1657-1719); Gonçalo Ravasco Cavalcanti de Albuquerque, primo do outro Ravasco (1659-1725) e João de Brito Lima (1677?). Com a só exceção de Botelho de Oliveira, nenhum deixou livro impresso, sendo que dos outros, excetuado Gregório de Matos, de quem existe manuscrita parte considerável da sua produção, apenas nos restam amostras, resguardadas em antologias e repertórios do século XVIII. Dessas amostras não podemos induzir senão o medíocre engenho desses versejadores. Nenhuma autoriza a sentir a perda do resto. Apenas se haveria perdido com ele mais algum sinal, como o da Ilha de Maré, de Botelho de Oliveira, da impressão da terra e dos seus últimos sucessos nesses poetas, e, portanto, a confirmação interessante do despontar do nosso nacionalismo.

Afora disto, o único a se destacar grandemente deste período, é mesmo Gregório de Matos. Ainda que não propriamente pela qualidade dos poemas em si, que na visão de José Veríssimo, é igualmente medíocre aos demais poemas dos outros poetas da época. O destaque de Gregório de Matos se dá pelo seu detalhamento daquela sociedade em seus poemas; que lhe conferem alto valor Histórico. Para José Veríssimo, Gregório de Matos se destaca pois foi o único que deixou registrado em seus poemas, o rastro de uma sociedade. Costumes, hábitos, sentimentos, feições normais, adágios, idiotismos, o registro do processo de  ‘abrasiliamento’ daquele povo.

O seu vocabulário, que está a pedir um estudo especial, é abundante em termos castiços, arcaicos e raros, espanholismos e brasileirismos. Costumes, usos e manhas nossas aparecem-lhe nos versos em alusões, referências, expressões, que documentam o grau adiantado da mestiçagem entre os três fatores da nossa gente que aqui se vinha operando desde o primeiro século da nossa existência. É sobretudo esta feição documental da sociedade do seu tempo que sobreleva Gregório de Matos aos seus contemporâneos e ainda a todos os poetas coloniais antes dos mineiros, todos eles sem fisionomia própria. O único que em suma a tem é ele.

Sobre a figura do próprio poeta, ainda na visão do estudioso, a  História até então, equivocara-se:

Da porção séria da obra de Gregório de Matos não julgaram aqueles dever ocupar-se. Deste descuido resultou uma noção imperfeita e uma idéia errada do poeta. Fizeram dele um herói literário, um precursor do nosso nacionalismo, um antiescravagista, um gênio poético, um repúblico austero, quiçá um patriota revoltado contra a miséria moral da colônia. Houvessem procurado conhecer a parte não satírica de sua obra, ou sequer lido atentamente a parte satírica publicada, única que conheceram, haveriam escusado cair em tantos erros como juízos.
Gregório de Matos e a Independência do Brasil.
Enganaram-se redondamente os que pretenderam fazer dele ou quiseram ver nele um precursor da nossa emancipação literária, cronologicamente o primeiro brasileiro da nossa literatura. É de todo impertinente supor-lhe filosofias e intenções morais ou sociais. É simplesmente um nervoso, quiçá um nevrótico, um impulsivo, um espírito de contradição e denegação, um malcriado rabugento e malédico. Mas estes mesmos defeitos, se lhe não permitem figurar com a fisionomia com que o fantasiaram, serviram grandemente à sua feição literária e lha revelaram, embora parcialmente, sobre todas as do seu tempo. Em todo caso, mereceria Gregório de Matos aquela apreciação se houvera apenas sido o poeta satírico de sua obra e da tradição, o díscolo que só ele entre os seus contemporâneos malsinou do regime colonial e dos vícios públicos e particulares que o pioravam, e que, num impulso de despeito pessoal, foi o único a sentir aquilo que devia, volvidos dois séculos, ser o germe do pensamento da nossa independência:
Que os brasileiros são bestas
E estarão a trabalhar
Toda a vida por manterem
Magamos de Portugal.

Brasil e Portugal são hoje pátrias irmãs de coração e de alma. Ambas com uma Literatura respeitável e que enfrentam problemas diversos como quaisquer outra nação do planeta mas, principalmente econômicos (neste momento). No caso do Brasil, ainda precisamos avançar muito em educação e cultura. Sim, há muitas outras independências a se conquistar!

 

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Paulistana; gosta de escrever, dias nublados, leituras densas, música, cinema e gastronomia.

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