Literatura Brasileira
ARCO DE VIRAR RÉU

 

imagempost

 

Arco de virar réu é o novo romance do autor paranaense Antonio Cestaro. Um livro que propõe falar de um tema tabu: a esquizofrenia. Mas o livro não tem pretensões de levantar bandeiras sobre uma causa e sim, explorar novas possibilidades criativas. E para abordar a temática, o autor utiliza uma linguagem eclética onde ora divaga de forma filosófica; ora de forma poética, e ora coloquial; simples, singela.

A narrativa em primeira pessoa, apresenta no lirismo do personagem, uma alternância entre a  sanidade e a loucura. Loucura da qual o personagem tem consciência e que em alguns períodos tem condições de discorrer sobre ela com lucidez e inteligência.

O livro é como se fosse um diário do personagem. São recortes; episódios de sua existência, onde ele rememora momentos e pessoas como um registro. O tempo não é linear e já no primeiro capítulo, o personagem  já está doente. De modo que o leitor não tem certeza do que seja real de fato. Tudo parece uma areia movediça.

O enredo é breve. Ele conta a história de sua família abandonada pelo pai, de sua mãe alcoólatra, de seu irmão Pedro que fora acometido pela esquizofrenia e que de repente, ele mesmo se percebe enlouquecendo. Talvez por mergulhar na loucura do irmão, ou seria algo hereditário? Não se sabe. E sendo ele um historiador social, com interesse pela antropologia e tribos indígenas, ao mergulhar na loucura do irmão, começa fazer um paralelo das coisas sem sentido que Pedro diz, com os rituais antigos da tribo Tupinambás, a qual praticava canibalismo.

Mas por fim, também não se tem certeza se o personagem é de fato um historiador, ou imagina isto.

Fui convidado a subir e ocupar o assento entre o professor Paulo Siqueira, referência nacional em arte indígena […] Falei por vinte minutos sobre os Tupinambás, os seus costumes e rituais, e, quando abri para perguntas, o maior interesse dos ouvintes estava na prática do canibalismo […]

Ao contrário da sinopse do livro, não fica claro no enredo que o personagem pratique o canibalismo. Tem algumas passagens que são descrições de sonhos, por exemplo. Mas um leitor que não tenha lido a sinopse, por exemplo, não irá se atentar que seja menção a isto.

A ideia de ligar elementos da loucura dos personagens às práticas de tribos indígenas antigas talvez seja o que mais atrai na sinopse do livro; o que desperta mais curiosidade. Porém, algo fica ‘desamarrado’. Tanto no enredo quanto na própria questão da esquizofrenia. Ao menos em uma primeira leitura. Obviamente deve-se considerar que trata-se de um enredo onde o personagem não está com sua mente sadia mas não me pareceu ser esta a questão e sim, como isto se desenvolve na estória.

Enquanto respondia as perguntas, percebi a união de duas pontas de um mesmo fio […] Dei-me conta, pela primeira vez de forma reveladora, de que havia elementos recorrentes na verborragia do Pedro. Palavras como pele, carne, sangue […]
Lembrei-me de quando ele respondeu à pergunta que fiz sobre a sua resistência em se alimentar de forma adequada, com aquele pensamento em tom de segredo que ficaria guardado nas  minhas mais remotas gavetas da memória ”Não sobrecarregamos cavalos com pesos além de armas e de pedras de fazer fogo. As tropas inimigas representam a carne”

Outro ponto que também ficou aquém no livro, é como a fala do protagonista sobre a existência dos outros personagens não surte empatia no leitor por eles. Talvez mais para o final, quando nos damos conta que talvez estes personagens possam não existir de fato. Mas daí a empatia é pelo protagonista, pela sua loucura.

No mais, o livro é recheado de sínteses de pensamentos filosóficos (principalmente sobre a existência) e também, de trechos em forma de aforismos enquanto o personagem lúcido. O que é muito prazeroso de ler.

Interessante também são os trechos onde a fala do personagem está acometida de sua loucura; pois embora a fala não tenha sentido para os outros personagens dentro da estória (se é que eles existam), para o leitor é uma experiência de leitura diferente. Um exercício de raciocínio onde se tenta acompanhar uma linha de pensamento à fim de dar um sentido nem que seja subjetivo. Como se o leitor quisesse colocar ordem no caos, assim como o protagonista a princípio quis fazer com a loucura ou suposta loucura do irmão. E então, quando o leitor mergulha na loucura do personagem, é como se o próprio leitor ‘enlouquecesse’ um pouco também; divagando em pensamentos que partira de uma mente doente. De qualquer forma, pensar profundamente é também uma forma de ‘enlouquecer’.

Nunca antes sentira de forma tão realista a proximidade do fim. Delírio? Alguém vivo já esteve mais perto do fim do que neste exato momento?
Quero admitir, nesta última vez, que o contraditório realmente abarcou toda a minha lógica e o fez movido pela naturalidade de um pulmão a inspirar e expirar inconscientemente. Vida e morte num só tempo e em todo o tempo.

Para finalizar as citações, deixo o trecho inicial do livro que é de uma imensa beleza poética .

E eu dizia a ele que a dobradiça havia cedido ao peso do tempo e ao inabalável apetite de cupins de incontáveis gerações. Que o vão da veneziana caída e entreaberta projetava um facho de luz poeirento no quarto emudecido por tempo de difícil constatação. Que quem por ali passava vislumbrava uma janela velha numa casa em ruínas, recuada e parcialmente recoberta pela vegetação outrora tratada como jardim. Mas também queria fazê-lo entender que, para mim, mais que isso, a ruína consistia na fagulha que acende o fogo, na água que desloca o monjolo, na queda, no choro, na semente e no tronco apodrecido. A parte e o todo num único fragmento ou no transcurso de uma existência.

A impressão que fica da obra é a de um livro ousado, que destoa dos paradigmas. Uma obra pertinente no campo da experimentação e da liberdade de escrita. Uma obra que pode muito bem representar os que queiram sair da zona de conforto para que surja novas possibilidades na Literatura Brasileira. Que aliás, hoje, 01 de maio, é seu dia.

 Acho que antes de mais nada, esta obra se faz importante por sua ousadia. Algo primordial para um escritor e para a Literatura.

 

 

 

 

 

 

 

Comente via Facebook

Comente via Facebook

About the author

Paulistana; gosta de escrever, dias nublados, leituras densas, música, cinema e gastronomia.

2 Comentários

  1. Lilian Lima

    Obrigada, Fernando. Realmente o livro causa este ‘estranhamento’. O que é bem interessante. Concordo com tua opinião. Abraço.

  2. Chronosfer

    Algo que é, para mim, essencial na Literatura: estranhamento é ousadia. A quebra de regras, se inserir em uma nova estética e aprofundar a forma na especialidade transforma o texto e o leitor sente o “estranhamento”. Gostei da resenha e o livro se insere nessa ousadia transformadora. Abraço, Lilian.

Deixe uma resposta para Lilian Lima Cancelar resposta

Arquivos
Assinar Blog por Email

Digite seu endereço de email para assinar este blog e receber notificações de novas publicações por email.

Seguir modo abstrato
%d blogueiros gostam disto: