Ensaios
Literatura e História: O livro ‘Um poema para Bárbara’ e Tiradentes
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Tiradentes por Portinari – 1948-1949 -. Coleção: Memorial da América Latina.

Hoje, 21 de abril, dia de Joaquim José da Silva Xavier, o alferes Tiradentes; enforcado em 1792 no Rio de Janeiro pelo crime de Lesa Majestade. Assunto que é pano de fundo do romance de estreia Um poema para Bárbara, da autora mineira que é também juíza,  Mônica Sifuentes.

Resolvi fazer este post a propósito deste dia que representa tanto para nossa História. A resenha da obra eu já fiz quando da leitura do livro mas abordei à época mais os aspectos da trama principal: o romance entre José Inácio de Alvarenga Peixoto (um dos principais inconfidentes) e Bárbara Eliodora e o envolvimento deles na inconfidência. Você pode ler a resenha aqui.

O assunto da Inconfidência Mineira propriamente, se dá mais para o final do livro; ocupando uma parte menor no enredo. Mas, nem por isto o assunto perde seu peso e importância na obra. O fato de ocupar menor volume, não tira a noção do leitor do que talvez possa ter sido aqueles momentos que a autora soube desenhar através da Literatura. As horas agonizantes dos inconfidentes, o horror dos interrogatórios e toda pressão desumana da Coroa Portuguesa que estendera-se também às famílias dos presos e à sociedade.

Sobre o crime Lesa Majestade, Mônica escreve:

‘Primeiro Interrogatório
Rio de Janeiro, presídio da Fortaleza da Ilha das Cobras, 11 de novembro de 1789.
Lesa majestade quer dizer traição cometida contra a pessoa do rei ou seu real estado, que é tão grave e abominável crime, e que os antigos sabedores tanto estranharam que o comparavam à lepra; porque assim como esta enfermidade enche todo o corpo, sem nunca mais poder curar, e empece ainda aos descendentes de quem a tem, e aos que com ele conversam, posto que é apartado da comunicação de gente: assim o erro da traição condena o que a comete, e empece e infama os que de sua linha descendem, posto que não tenham culpa.
Texto das Ordenações Filipinas do Reino de Portugal, ano 1603, Título VI, Livro V’

Da Inconfidência Mineira

A Capitania Mineira era uma das mais bem sucedidas à época. Porém, com seu declínio financeiro provocado pela queda da produção de ouro, as taxas que a Coroa Portuguesa impunha à capitania somado aos seus desmandos, foram tornando-se um fardo pesado para aquela sociedade burguesa carregar nos ombros. Daí, o desejo de tornarem-se uma capitania independente da Coroa, criando assim uma política própria local (mais tarde, a Inconfidência Mineira serviria de influência para a ideia da proclamação da República do Brasil).

O grupo de inconfidentes foram influenciados pelos ideias iluministas do século XVIII. Tanto através de livros (dos quais alguns entravam no país as escondidas por serem proibidos pela Coroa) como também, através das viagens que a elite brasileira fazia à Europa. Outro fato influenciador, foi a Independência dos Estados Unidos em 1776.

O grupo de inconfidentes nasceu praticamente na maçonaria. Alguns inconfidentes eram maçons como o próprio Tiradentes. Há algumas controvérsias entre os historiadores sobre a figura de Tiradentes. Não só com relação à sua aparência física mas até mesmo sobre o mito que envolve sua pessoa. Para alguns historiadores, Tiradentes não seria tão bem visto entre os próprios companheiros inconfidentes.

Esta é a linha de pensamento alguns historiadores que Mônica parece seguir em seu romance, dando a impressão de que outros inconfidentes (como o próprio José Inácio de Alvarenga Peixoto, protagonista do livro Um Poema para Bárbara) teria mais peso no movimento. Na obra de Mônica Tiradentes seria mais um tipo ‘falastrão’ que agregava pessoas para o movimento. Acabara traído, sendo preso arrastando os demais. Foi considerado o líder e  levado à morte.

”Na casa do tenente-coronel Freire de Andrada, comandante da tropa dos Dragões, estavam alem do anfitrião, entre outros, o José Álvares Maciel, cunhado do Freire de Andrada, o padre José da Silva de Oliveira Rolim, o alferes Joaquim José da Silva Xavier e Tomás Antônio Gonzaga. Esse último tinha preferido ficar na varando, pois não queria se comprometer com a parte militar do movimento. A discussão estava acalorada. Inácio chegou e cumprimentou a todos, indo se postar em pé perto da porta, de onde podia ver e falar com Tomás. O alferes Joaquim José da Silva Xavier falava alto, gesticulava, garantindo inflamadamente o êxito da revolução. O plano era dd que, uma vez iniciado o movimento, seria implantada uma Junta Governativa Provisória, formada pelos principais líderes civis e militares, sendo que o primeiro homen na hierarquia seria Tomás Antônio Gonzaga. Tomando a palavra, o coronel Freire de Andrada pediu a atenção dos companheiros: – Meus amigos, agora que estamos todos aqui, vou lhes explicar que é o plano de ação que esbocei, com o auxílio do padre Luís Vieira e do alferes Joaquim José. Inácio olhou para Tomás, que fez-lhe um muxoxo. Ele não simpatizava com o alferes, que na sua opinião, iria colocar tudo a perder, por falar demais.”
”A leitura da sentença consumiu duas horas […] Toda aquela leitura espetacular da sentença condenatória não passava, no entanto, de uma bem encetada e pérfida manobra. O objetivo era mesmo desestabilizá-los ainda mais e realçar o suposto ‘perdão’ e ‘generosidade’ da soberana. D. Rainha I, no entanto, que por essa altura já se encontrava com a saúde mental totalmente debilitada, provavelmente não soube e nem tomou parte nesse aparvalhado teatro [….] O escrivão começou a ler o novo veredito, enquanto os réus mantinham a respiração em suspense. O que ele disse, em meio a toda aquela enfadonha linguagem jurídica, era que, por piedade da soberana augusta, apenas se manteria a pena de enforcamento e esquartejamento para o principal líder, o Tiradentes. Os demais seriam punidos com as penas de degredo perpétuo para a África e infâmia […] onde deveriam passar o resto dos seus dias, sob pena de morte natural [….] alguns deles, cuja participação na Inconfidência foi considerada menor como Tomás Gonzaga, impôs-se a pena de degredo temporário, por dez anos […] Do outro lado da sala, apenas um prisioneiro não comemorava com os outros. Era o ‘chefe’, o ‘cabeça da conjuração’, como haviam entendido os respeitáveis juízes reunidos naquela Alçada Régia. A ele caberia o papel de ‘cordeiro imolado’ […] Tiradentes estava abatido, mas tinha o ar resignado de quem se ofereceu para o sacrifício supremo.”

Embora sendo um romance histórico de ficção, Mônica Sifuentes fez um ótimo trabalho de pesquisa para escrever o livro. Há quem desconsidere Literatura na questão de seu valor histórico; o que é de um equívoco. Mas independente de mitos e verdades, o fato é que Tiradentes foi um dos inconfidentes e o escolhido para ser punido à exemplo, com sua morte. Também, a História nos dá uma noção de outros tempos. Onde por exemplo, aquelas sociedades, costumavam honrar as vidas valorosas ceifadas. E a forma de eles honrarem, era honrar a própria vida. Honrar o bem maior que é a vida, através de mudanças.

 Viva os inconfidentes!

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About the author

Paulistana; gosta de escrever, dias nublados, leituras densas, música, cinema e gastronomia.

6 Comentários

  1. Lilian Lima

    Sim, Fernando, concordo. A História é importantíssima mas nem sempre dá conta dos detalhes, das nuances, da complexidade e essência das sociedades. O autor a sua época capta este universo e o reflete em sua literatura. Grande Abraço!

  2. mariel

    Nunca pensei que diria isso: bons dias nublados pra ti.

    • Lilian Lima

      Haha. Obrigada, Mariel. Aproveitar que dias nublados são bons para reflexão, rs. Abraço!

  3. Chronosfer

    Romances históricos cumprem para além da ficção importante papel de, pelos menos, tentar que possamos avançar em relação a verdadeira História e então o nosso juízo em relação a ela ser mais consciente. Ao ler teu texto, impossível não entrelaçar cada palavra com nossas realidades mundo adentro e, para mim, concluir que temos criminosos demais e completa falta de líderes e heróis. Texto para uma profunda reflexão. abraço, Lilian.

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