Livros de Estudos
História da Literatura Brasileira / Parte II

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No post anterior, mencionei sobre a Literatura Brasileira ser estudada a partir de dois períodos: período colonial e período nacional. E que o período colonial foi uma época onde a produção literária deu-se apenas como uma cópia muito inferior a da portuguesa segundo os estudiosos. Como estudiosos estou considerando tanto José Veríssimo quanto seus antecessores dos quais ele se valera para escrever sua obra História da Literatura Brasileira. Lembrando que este estudo é de 1915.

Sabemos que diferentemente do Quinhentismo de Portugal, que estava no auge literário, o Quinhentismo no Brasil é marcado por uma produção de cunho informativo e descritivo onde temos como primeiro documento do gênero, a carta de Pero Vaz de Caminha, por exemplo. Outro tipo de escrita deste período é o de cunho religioso; onde os jesuítas realizavam grande produção literária de aspecto catequizador. Mas aqui ainda não trata-se de Literatura propriamente. O uso do termo é apenas para configurar produção de escrita.

Mas este Quinhentismo no Brasil pode bem ser dividido em duas partes onde num segundo momento, aparecem os primeiros versejadores (portugueses e também seus descendentes), ou seja, onde começa-se a produção de ficção propriamente em forma de poesia e prosa. 

O que me parece, nos estudos de José Veríssimo, é que a literatura de ficção só irá começar a ter identidade própria, quando o espírito nacionalista começa a dar seus primeiros sinais dos que para cá vieram e obviamente, dos que nasceriam posteriormente aqui.

”A nossa literatura colonial manteve aqui tão viva quanto lhe era possível a tradição literária portuguesa. Submissa a esta e repetindo-lhe as manifestações, embora sem nenhuma excelência e antes inferiormente, animou-a todavia desde o princípio o nativo sentimento de apego à terra e afeto às suas cousas. Ainda sem propósito acabaria este sentimento por determinar manifestações literárias que em estilo diverso do da metrópole viessem a exprimir um gênio nacional que paulatinamente se diferençava.”

A busca pela identidade foi um processo gradual que ganhou voz por parte dos mineiros – como mencionado no post anterior –  foram os mineiros que apontaram para a vontade da independência intelectual, literária (e política) do Brasil com relação à Portugal, movimento denominado Plêiade Mineira que dera-se no século XVIII. Movimento que foi retomado com toda força no Romantismo (1836) quando então, acontece a emancipação literária. Relembrando que o marco da Literatura Brasileira é o ano de 1822 com a independência do Brasil.

Obviamente houve alguns destaques mesmo no primeiro período do Quinhentismo e que de certo foi o embrião desse sentimento de libertação e identidade própria.

Aqui retomo o início da cronologia para falar de alguns pontos. O primeiro, é sobre a origem da produção literária de ficção propriamente. Se em Minas nasceu o sentimento de independência literária, consideram que fora em Pernambuco (1601) com o poema Prosopopéia de Bento Teixeira em louvor ao filho de Duarte Coelho que a produção literária dera início. Embora houvesse outras produções como veremos depois.

“foi Pernambuco o lugar em que abrolhou a flor literária em nossa pátria”.
“Em 1601 saía em Lisboa, da imprensa de Antônio Alvarez, um opúsculo de dezoito páginas, in-4o, trazendo no alto da primeira do texto este título: Prosopopéia Dirigida a Jorge Dalbuquerque Coelho, Capitão, e Governador de Pernambuco, Nova Lusitana, etc. O nome do autor Bento Teyxeyra vinha, assim escrito, embaixo do Prólogo, no qual fazia ao seu herói o oferecimento da obra”

O segundo ponto, é o que comentei no post anterior também: o aspecto moral e social (dos portugueses) e a questão da visão racista (índios e negros) nos estudos de José Veríssimo (e que era uma visão da época), com relação a formação intelectual dos primeiros intelectuais da terra.

José Veríssimo leva em consideração a questão da submissão natural que o período colonial teve e também a questão do apego paulatino à nova terra. Por outro lado, seu estudo parece considerar que por não ter vindo cá os intelectuais de Portugal, não pôde-se nos primeiros tempos ter-se uma Literatura superior e que com a mistura destes portugueses com índios e negros (broncos), isto não foi possível no início.

”os mais cultos, raríssimos se iam a conquistas e empresas ultramarinas. O grosso dos que se nelas metiam eram da multidão ignara que constituía a maioria da nação”
”A sociedade que aqui existiu no primeiro século da conquista e da colonização (1500-1600) e a que desta se foi desenvolvendo pela sua multiplicação, logo aumentada pelo cruzamento com aquelas raças, era em suma a mesma de Portugal […] Salvo exceções diminutas, esse português pertencia às classes inferiores do Reino, e quando acontecia não lhes pertencer pela categoria social, era-o de fato pelas condições morais e econômicas.”
”As mulheres brancas eram raras, as donas e senhoras raríssimas. As famílias existentes na maior parte teriam vindo constituídas de Portugal e muito poucas seriam. As formadas aqui, por motivo de escassez de mulheres brancas, seriam ainda menos. As demais resultavam de uniões irregulares dos colonos com as suas negras, conforme principiaram os portugueses a chamar às índias, ou do seu casamento com estas, como começou a acontecer por influência dos jesuítas, e mais tarde foi acoroçoado pelo rei. As numerosas filhas ilegítimas ou legitimadas do Caramuru casaram com fidalgos e soldados da conquista e seriam mamelucas ainda escuras, do primeiro sangue, e umas broncas caboclas. Ao contrário do que passou na América inglesa, excetuando algum eclesiástico ou alto funcionário, quase não veio para o Brasil nenhum reinol instruído, e ainda incluindo estes pode dizer-se que no primeiro século da colonização não houve aqui algum representante da boa cultura européia dessa gloriosa era.”

Em outro trecho ele usa o termo ‘raças inferiores’ (índios e negros) ao tratar da miscigenação.

Um ponto contraditório que vejo é que os que começaram a produzir Literatura de ficção, são pessoas fora destes contextos mencionados pois  “foi Pernambuco o lugar em que abrolhou a flor literária em nossa pátria” e  também foi Pernambuco o primeiro assento civilizado que deram conta (o segundo foi a Bahia).

 ”O mais antigo assento da primeira sociedade brasileira, que não desmereça o nome de civilizada, foi a capitania de Pernambuco de Duarte Coelho. Este fidalgo da primeira nobreza portuguesa e ilustrado por bizarros feitos militares na Índia desde 1534 se estabeleceu na sua capitania com a sua mulher, da casa dos Albuquerques, um cunhado, outros fidalgos e cavaleiros de suas relações ou parentescos, e muitos colonos, os melhores talvez dos que nesses tempos vieram ao Brasil. A sua colônia foi a mais bem ordenada e a mais em governada de todas e a que mais prosperou.”

A contradição me parece que está em que José Veríssimo considera medíocres as produções do primeiro período colonial. Até  mesmo o poema Prosopopeia. O qual ele chama de um arremedo  inferior de Os Lusíadas de Camões.

”É um poema de noventa e quatro oitavas, em verso endecassílabo, sem divisão de cantos, nem numeração de estrofes, cheio de reminiscências, imitações, arremedos e paródias dos Lusíadas. Não tem propriamente ação, e a prosopopéia donde tira o nome está numa fala de Proteu, profetizando post facto, os feitos e a fortuna, exageradamente idealizados, dos Albuquerques, particularmente de Jorge, o terceiro donatário de Pernambuco, ao qual é consagrado. Não tem mérito algum de inspiração, poesia ou forma. Afora a sua importância cronológica de primeira produção literária.”

Ou seja, Pernambuco era o assentamento mais civilizado, os que os povoaram a princípio fugiam a este contexto social e de miscigenação mas nem por isso produziu-se obras de qualidade (?).  A ‘tese’ do potencial intelectual relacionado à classe social e moral só funciona quando desprezamos outros dados (casos) que a contradizem. Ou quando não é considerada a produção de outras culturas que julgamos inferiores por ser diferente, fora das regras daquela idealizada. Este é um ponto que me saltou os olhos no estudo mas obviamente precisa de um maior aprofundamento.

Neste aspecto da falta de independência e qualidade da literatura inicial, eu concordo com o estudo quando demonstra que muito dos primeiros habitantes portugueses não tinham interesse de permanecer na terra e tornar-se parte dela, e que por isto, não produziam literatura ou a produziam mal pelo mesmo motivo. Não tinham apego a terra, sentimentos para com ela pois tinham planos de voltarem à Portugal. Logo, fugia-lhes a genuína inspiração tendo como objetivo apenas os negócios.

”Um dos mais perspicazes observadores da primitiva sociedade colonial brasileira, o autor incógnito dos Diálogos das Grandezas do Brasil, explicando em 1618 […] que todos não pensavam senão em voltar ao Reino sem cuidarem do adiantamento e futuro da mesma terra.”

Esta inspiração, mesmo que existindo nos primeiros habitantes, não tinha força.  Ela surgiria somente dois séculos depois, quando o pertencimento e o sentimento à terra aflorou-se de forma genuína em seus descendentes ávidos pela liberdade e pela independência política e intelectual de forma a criar uma identidade própria.

Mas esta identidade ainda hoje é complexa. Talvez o motivo do Brasil ainda ter tantos problemas e de várias ordens. Mas já não se pode dizer que não temos uma Literatura Brasileira.

Continuarei com as impressões sobre História da Literatura Brasileira de José Veríssimo nos próximos posts.

 

 

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Paulistana; gosta de escrever, dias nublados, leituras densas, música, cinema e gastronomia.

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