Literatura Brasileira
Laços de família

A figura feminina dentro das relações familiares de classe média no século XX.

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Laços de família é um livro de quinze contos de Clarice Lispector, onde as relações familiares da classe média daqueles anos em que a escritora vivera (1920-1977), são retratadas através de personagens e alegorias.

E o que era a classe média naquela época no sentido familiar? Ao menos nesta obra ao que parece, relações por conveniências (de ordem material ou de sentido de vida), que acarretavam em disfunções familiares. Nada que não se encontre ainda hoje com suas devidas diferenças; como o papel da mulher nas relações familiares; seu papel na sociedade; e ela mesma como um ser. 

Mas muito além das supostas intimidades das famílias, Clarice esmiuça algo mais profundo. O psicológico destas relações sob o prisma da mulher dando voz à personagens femininas; algo um tanto negligenciado pela literatura. Questão esta que já vinha sendo discutida por escritoras como Virgínia Woolf, por exemplo. Mas já algum tempo, até mesmo escritores masculinos tem se importado com o que pensa e sente suas personagens femininas. E não poderia ser diferente. Outrora, se já não bastasse a nulidade das mulheres em sociedade, isto era ainda replicado na ficção.

O que faz da literatura de Clarice ser genial, é sua forma. Forma que ela buscara e lapidara por muito tempo, a cada obra . Debaixo de seus enredos e escrita aparentemente simples a uma primeira lida, abordando geralmente a trivialidade do cotidiano, mora tamanha complexidade! Esconde-se verdadeiros ‘códigos secretos’ que se abrem para outras esferas do pensamento. E as chaves, estão nas mãos do leitor quando faz uma leitura mais atenta e paciente. Pois Clarice parece fazer este jogo não para ser desentendida, mas, decifrada.

A questão da figura feminina e familiar é muito recorrente na obra de Clarice. Nestes contos percebemos não só a mulher de época retratada, mas também, um feminismo reprimido e contido da autora. E aqui uso feminismo como uma vontade de liberdade, vontades e domínio de si mesma e não uma ideologia propriamente, ou uma militância de Clarice. Porém, parece que o que resulta deste comedimento da autora, é a explosão destes sentimentos em sua forma subliminar de escrever sobre este assunto ‘ser mulher’.

Na biografia de Clarice, escrita por Benjamin Moser, ele revela que ela não gostava de comparações com outros escritores e não assumia as referencias das quais atribuíam a sua obra, por segundo ela, desconhecê-las. Em Laços de família, as influências que os estudiosos dão fé, é do romance psicológico e o fluxo de consciência da literatura irlandesa. Como James Joyce em sua obra Ulisses. O que aliás, é um estilo que Clarice utilizara praticamente em toda sua obra ao que parece. Eis dois dos contos:

Devaneios e embriaguez duma rapariga 

Neste primeiro conto, a autora usa um artifício linguístico gracioso, ao dar um sotaque lusitano à personagem. Pelo título logo se nota o termo ‘rapariga’ que que em Portugal significa ‘moça’. Mas esta moça do conto já é uma mulher casada, mãe de filhos, não trabalha e está entediada com sua vida e isto ela constata quando se vê sozinha.

Com o marido a trabalhar e os filhos na casa de uma parente, vê-se só, desobrigada a qualquer coisa e por isto, decide dar-se o direito de ficar na cama sem nada fazer. E é quando não tendo nada a fazer, começa a pensar em sua vida.

Mas por fim, o marido chega e a leva a um jantar. Um jantar em um restaurante onde é comemorada a ascensão financeira do anfitrião.

Lá pelas tantas, já embriagada, a rapariga se põe a devanear com um marido melhor, uma vida melhor, enfim, uma outra vida onde ela mesma não seria  ela mas, uma outra. Uma outra que ela sempre quisera ser e que a bebida lhe fizera sentir-se esta outra. Em meio a seu devaneio, percebe a presença de fato desta outra mulher. Uma mulher de fina cintura, com ares de elegância, metida em um chapéu, acompanhada de um distinto cavalheiro. Mas ao comparar-se com tal beldade, a rapariga vê que nem chapéu ela traz na cabeça. E é quando então ela passa a ressaltar mentalmente os defeitos desta outra mulher. O ponto principal talvez seja sua crítica à fina cintura da mulher. O que ao seu ver, a impediria de ser apta à parir filhos.

Nisto, é deflagrada a contradição da personagem. Pois quando ela se vê impossibilitada de ser aquilo que ela gostaria de ser (ali em seu devaneio sem chapéu), critica aquela imagem desejada, usando como trunfo o que ela acha ser o que de melhor uma mulher pode ter: condições de parir. Ou ao menos, é o que ela pensa no que de melhor ela mesma tenha. Mesmo que criar filhos não preencha seu vazio quando não esteja ocupada com eles, e fique entediada.

Amor

Este é um conto onde a personagem também é uma mulher do lar, mãe de família. Mas ao contrário do primeiro, Clarice o recheia de seus ‘códigos’ linguisticos e suas metáforas. O Amor tratado neste conto não é o amor eros nem o filial e sim, o amor fraterno, onde este, vira um dilema quando posto à prova pela vida familiar segura.

Assim como a ‘rapariga embriagada’, Ana dá-se conta da frustração de sua vida no momento em que está só e sem nada a fazer. O que nos leva a pensar que a mulher de outrora se preenchia de afazeres domésticos não somente pelo seu papel àquela altura mas, como uma fuga da ‘realidade’ até porque, nem sempre havia outra.

Ana, a personagem, com seus afazeres domésticos do dia realizados, se encontra na hora perigosa da tarde.

”Certa hora da tarde era a mais perigosa. Certa hora da tarde as árvores que plantara riam dela. Quando nada mais precisava de sua força, inquietava-se. ”

Quando Ana sai para fazer compras e retorna para casa em um bonde com seu saco de crochê, algo acontece com ela. Um momento de epifania, uma revelação. Este momento se dá quando ela avista aquele homem cego parado na rua mascando chiclete. Distraída por estar atônita a observar o homem, o bonde arranca e suas compras caem no chão quebrando os ovos que havia comprado. O mal estava feito.

”O embrulho dos ovos foi jogado fora da rede e, entre os sorrisos dos passageiros e o sinal do condutor, o bonde deu a nova arrancada de partida. Poucos instantes depois já não a olhavam mais. O bonde se sacudia nos trilhos e o cego marcando goma ficara atrás para sempre. Mas o mal estava feito”

Que mal foi este que estava feito? Não, não foi a perda dos ovos mas, a piedade. Ver o cego, lhe arrancara de sua vida estável e segura do lar simbolizada pelos ovos frágeis guardados no saco de crochê que ela mesmo fizera. A estabilidade que ela escolhera para livrar-se dos perigos da vida e do perigo de si mesma. Pois a vida sem  uma bolha de proteção ainda que imaginária, é estar suscetível aos horrores desta. Horrores que vemos, que outros nos causam e que nós mesmos causamos aos outros.

”Ela apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto para que esta não explodisse […] E através da piedade aparecia a Ana uma vida cheia de náusea doce”

Atordoada, Ana entra no Jardim Botânico sem se dar conta, como a fugir. Mas aquele ambiente natural e selvagem toma dimensões desproporcionais como se agora, os sentidos de Ana estivessem  e um simples besouro parece um enorme dragão. Ana dá-se conta da natureza selvagem e que ela mesma a carrega dentro de si. Uma natureza amoral e portanto, cruel. A mesma que ferira os olhos do cego. Porém, o que a amedronta ainda mais, é que a natureza é linda e sedutora.

”A moral do jardim era outra. Agora que o cego a guiara até ele, estremecia nos primeiros passos de um mundo faiscante, sombrio, onde vitórias-régias boiavam monstruosas’ […] O Jardim era tão bonito que ela teve medo do inferno”

O instinto de sobrevivência, a natureza crua, está em luta constantemente com a moral e a empatia. A moral e empatia de Ana (piedade), briga com sua natureza egoísta que é a necessidade de ignorar o cego, para que sua situação não a incomode, não a faça sofrer. O cego, é a representação das mazelas do mundo e o jardim, a natureza cruel.

”já não sabia se estava do lado do cego ou das espessas plantas […] Com horror descobria que pertencia à parte forte do mundo – e que nome se deveria dar à sua misericórdia violenta? […] Por Deus, pois não fora verdadeira a piedade que sondara no seu coração as águas mais profundas? Mas era uma piedade de leão”.

Por fim, quando já em casa mais a noite e ainda atordoada, o marido quem a tira de seu horror. Na cozinha, o fogão com defeito faz um estouro e ela corre para ele assustada.

” — Não quero que lhe aconteça nada, nunca! disse ela. — Deixe que pelo menos me aconteça o fogão dar um estouro, respondeu ele sorrindo.”

Por fim, parece que é o marido quem a ‘salva’ de seu dilema, ou ao menos, ela deixa em suas costas a decisão.

”Num gesto que não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver […] Acabara-se a vertigem de bondade. E, se atravessara o amor e seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no seu coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia.”

Ana faz a escolha de voltar para seu mundo doméstico seguro, livre da natureza cruel. Livre de ferir-se com o amor (fraternal) e o inferno que ele traz. Sem nenhum mundo em seu coração. Sem o mundo em suas costas. Ela renunciava o mundo em favor da família ou ainda, usando-a como uma ‘desculpa’ moralmente e ‘empaticamente’ aceita como fuga da realidade.

Este conto tem muito a ver com os dilemas da autora. Segundo sua biografia, ela teria dito à um amigo (quando de suas experiências como ‘mulher de vice-cônsul’ ) que ela não era nenhuma santa para fazer caridade, algo do tipo. As mazelas dos países por onde ela passava e do próprio Brasil, lhe faziam mal. Talvez por isto não fosse uma pessoa abertamente engajada. Mesmo tendo a carga de sofrimento de suas questões familiares e étnicas, ela voltava-se para dentro de si. Mas no entanto, nem por isto deixou de fazer caridade. Quando em Nápoles por exemplo, à serviço da embaixada, ajudou a tratar dos pracinhas brasileiros e desta vez demonstrara muita alegria e gosto em fazê-lo. Esta foi uma dentre outras ações, em outras circunstâncias. Contradição parece que era uma das marcas da autora.

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About the author

Paulistana; gosta de escrever, dias nublados, leituras densas, música, cinema e gastronomia.

4 Comentários

  1. Barbara M.

    Menina! Meu blog parou de te seguir sozinho e agora que percebi. Mas até que foi bom pq agora tenho um monte de posts novos pra ler! hahhahha

    • Lilian Lima

      Haha. Mas sabe Bárbara, depois que mudei o blog para (.com) tenho tido vários problemas desta ordem. Com visualização dos antigos e novos seguidores do blog, com blogs que eu seguia e começo a seguir. Tanto nesta questão que vc disse como tb. de visualização de postagens. A comunicação tá falhando. Nesta parte não gostei da mudança. 🙁

  2. Barbara M.

    Amo esse livro. Acho que o meu conto favorito dele é O Búfalo.

    • Lilian Lima

      O Búfalo é mesmo muito bom, Bárbara. Também gostei. Bem profundo. Eu fico indecisa qual gostei mais, haha. Mas gostei muito do ‘Amor’ e ‘Uma Galinha’ tb. Beijos 🙂

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