Biografias
Clarice, uma biografia – Parte II

A coisa em si.

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A mente que não desligava-se das grandes questões.

Clarice Lispector, não permaneceria judia. Abandonaria sua fé na juventude (após a morte do pai); diluindo assim em toda sua obra, um ceticismo elegante, sutil. Porém, a questão ‘deus’ irá persegui-la, ou ela irá perseguir esta ideia até o fim em uma constante contradição. Após uma exaustiva busca que a levara a ‘beira da loucura’ sobre estas questões, por fim, antes de sua morte ela dirá que encontrara deus. O que não fica claro que deus seria, se era um deus pessoal.

Mas a contradição parece que era uma das marcas de Clarice Lispector. Ao menos é o que a biografia demonstra. Uma cética que consultava astrologia, uma mulher que escrevia sobre a liberdade a ponto de comparar-se a um animal selvagem mas que a vida que tivera poderia ser tida como até comportada. Enquanto casada, cumpriu seu papel de mãe e esposa nos moldes da época, embora isto lhe custasse, lhe exaurisse, algo que não deixou de aparecer em suas obras. Depois da separar-se do marido, não fora diferente. O querer viver seu ‘eu’ verdadeiro e a representação social, era algo em constante conflito em seus dilemas pessoais que não eram poucos, pois somava-se ali a herança do estigma de seu povo e do que acontecera com sua própria família.

Aliás, a obra de Clarice parece ser muito autobiográfica. Mas uma autobiografia muito mais inconsciente do que consciente. Suas personagens, eram ela. Os contextos, eram seus contextos com os diversos momentos de sua vida. Uma escrita tão vinda do inconsciente que escrevera consciente:

”Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém, provavelmente a minha própria vida.”

De um modo geral, a literatura de Clarice, tem uma constante das grandes questões e as questões existenciais (além da figura feminina e a vida familiar). E se ela ainda não tinha consciência na Primeira Guerra, por ser um bebê, na Segunda ela mesma pôde sentir um pouco na pele da questão judaica quando ela mesma fora demitida do jornal em que trabalhava por ser judia, aqui no Brasil. Mas a forma de Clarice lidar com a questão judaica e do que acontecera com sua família, parece que era fingir-se alheia enquanto consumia-se por dentro. Suas questões, ela trataria em sua obra. Porém, talvez Clarice tenha tido dificuldades em conciliar sua mente altamente filosófica e literária com a vida real e prática pois acabou cada vez mais reclusa ao final da vida e dependente de remédios, entre outras complicações. Teve uma das mãos e parte do corpo queimados em um incêndio em seu apartamento provocado por seu próprio cigarro por ter caído no sono.

Clarice produziu até em seu leito de morte no hospital. Como sempre dissera que iria fazer. Ali, ditava à sua amiga e ajudante Olga Borelli todas suas últimas inspirações literárias e ao que parece, por fim, converteu-se naquele momento em sua ficção, mas agora, literalmente. Sua amiga Olga relataria depois:

”Ficou muito branca e esvaída em sangue. Desesperada, levantou-se da cama e caminhou em direção à porta, querendo sair do quarto. Nisso, a enfermeira impediu que ela saísse. Clarice olhou com raiva para a enfermeira e, transtornada, disse: ”Você matou meu personagem”.

As dificuldades de Clarice em publicar

Seu primeiro romance, Perto do coração selvagem, talvez tenha sido a obra que Clarice conseguira publicar com mais facilidade. Ou seja, logo de pronto. As obras seguintes, que parecem refletir uma experimentação, uma busca pela forma perfeita e uma identidade de escrita, foram sempre publicadas com muita dificuldade pois as editoras não queriam publicar, apesar do sucesso que sua primeira obra tivera, e de Clarice já ter amigos no meio editorial.

Com sucesso, não quer-se dizer, fama da autora. Esta, ela alcançara já em seus últimos anos de vida, quando então tornar-se popularmente conhecida. Até lá, seu nome ficara mais restrito aos críticos, escritores renomados, a uma parcela de leitores que buscavam uma literatura diferente e até mesmo no exterior, ela tinha certo reconhecimento. Mas isto não a livrava de ser ludibriada em seus contratos pois Clarice ao que parece, não sabia gerir esta parte administrativa de sua carreira e não teve agente literário até quase perto de sua morte. O que também, parece ser coisa rara de se ter no Brasil.

 Clarice no pódio literário

Quanto ao seu estilo literário e o estudo de sua obra, a biografia de Clarice é muito proveitosa sobre o assunto. Pois Benjamin Moser analisa  grande parte dela, fazendo um paralelo com a vida da autora e o contexto histórico da época.

Sua busca pela ‘coisa em si’ acabou por tornar-se sua forma de escrita. A busca pela palavra exata, lapidara sua literatura. Apesar de todos altos e baixos de Clarice Lispector como escritora, o fato é que ela hoje é uma das maiores senão, a maior escritora brasileira. Seu estilo diferenciado, trazendo uma nuance estrangeira, fez com que nossa literatura se enriquecesse ainda mais. Comparada a grandes escritores como Kafka, Ulisses, Virgínio Woolf por exemplo, sua obra outrora por vezes tida como estranha, consolidara-se no pódio literário entre os grandes e hoje, dela ocupa-se estudiosos não só do Brasil como de outros países.

 

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About the author

Paulistana; gosta de escrever, dias nublados, leituras densas, música, cinema e gastronomia.

2 Comentários

  1. Cris Campos

    Gostei imenso da sua apresentação Lilian. Parabéns! Bjo grande!

    • Lilian Lima

      Obrigada, Cris!! Que bom que gostou. Estou adorando redescobrir Clarice! 🙂

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