Biografias
Clarice, uma biografia / Parte 1

Clarice, uma biografia de um povo.

Captura de Tela 2016-02-16 às 21.41.47

 

Em Clarice, uma biografia, quem espera ler apenas sobre uma mulher elegante e bonita, cercada por grandes nomes de sua época; casada com um cônsul; envolta em um ar de mistério como que de propósito por escrever uma literatura ‘difícil’ por capricho; está muito enganado(a). Este é apenas um estereotipo que criou-se, se é que o estereotipo de fato exista.

Mais que uma biografia, é um livro de História; pois a história de Clarice Lispector começa muito antes dela nascer e funde-se com tantas outras histórias sobre mais um período vergonhoso na existência da humanidade. As ondas de progroms na Europa no início do século XIX, quando então sua família sofrera literalmente na pele seus horrores, potencializados depois pela Primeira Grande Guerra. 

Progrom, é uma ação violenta em grupo; cujo objetivo é destruir a habitação; o comércio; e os templos religiosos de uma etnia ou de minorias. Onde também seus bens são saqueados; a violência física e sexual é utilizada e muitas pessoas são assassinadas não importando a idade e o sexo delas. As que sobrevivem passam a viver em estado de miséria; como fugitivas, como uma caça; muitas vezes doentes gravemente.

Fugidos destes progroms, a família Lispector viveu um verdadeiro êxodo entre algumas cidades da Ucrânia e Romênia. Quando a Primeira Guerra estourou, eles que tinham uma condição de vida digna de certa forma, já estavam em situação miserável como resultado dos progroms que vinham sucedendo. Mania, sua mãe, faleceria em Recife, depois de anos praticamente inválida acometida por sífilis contraída em um estupro do qual a família nunca falara abertamente mas que é insinuado no livro de sua irmã Elisa, No Exílio .

Mesmo acometida de sífilis, Mania engravidara da filha caçula e ela nascera em Tchechelnik na Ucrânia quando o lugar ainda era uma aldeia.

”Um cantinho do enorme império do czar, Tchechelnik, na província ucraniana ocidental da Podólia, era o típico lugar encardido onde, até a virada do século XIX para o XX, vivia a maior parte dos judeus do mundo […] Um imigrante de Tchechelnik em Nova York, Nathan Hofferman, enfatizou que ”a maioria dos judeus era pobre. E não no padrão de ‘pobreza’ que é aceito aqui nos Estados Unidos, mas literalmente pobre. O que significa não ter uma fatia de pão para alimentar os filhos, que eram muitos””.

Quando estourou a Primeira Guerra, eles vieram para o Brasil. Neste episódio tiveram sorte por terem conseguido emigrar pois as fronteiras e as rotas tradicionais para deixar a Europa já estavam fechadas para os judeus. Com a ‘carta convite’ de familiares, eles conseguiram sair da Europa em uma rota difícil indo então para Maceió juntar-se a parentes que  há tempos haviam se estabelecido no Brasil. Mesmo que depois estes parentes viessem a hostilizá-los e eles se mudassem para Recife. Mas a partir daí, a história de Clarice funde-se com a História do país que anos mais tarde, passaria a ser um lugar ameaçador para os judeus por causa da II Guerra e o flerte de Getulio com o nazismo e os integralistas.

No conjunto de sua obra, segundo a biografia de Benjamin Moser, Clarice buscava não só uma identidade como escritora mas a própria identidade. Lutava com questões internas profundas como a existência, Deus, o bem e o mal, a natureza das coisas. Havia também uma luta interna entre seu verdadeiro eu e sua vida como mulher, mãe e esposa. Uma luta incessante entre o ser e o representar para a sociedade.

A história triste da família sempre fora uma sombra em sua vida. E ainda que ela não vira e nem passara por nada do que seus pais e suas irmãs passaram (pois era um bebê),  jamais pôde superar. Não gostava de falar do passado da família e tinha dificuldades em lidar com uma dor sem cura e que era só dela. Talvez por isso, escrevesse o que muitos não entendiam.

Comente via Facebook

Comente via Facebook

About the author

Paulistana; gosta de escrever, dias nublados, leituras densas, música, cinema e gastronomia.

2 Comentários

  1. Lilian Lima

    Sempre gostei dela apesar de não ter lido muita coisa. Estou adorando esta biografia que se mistura com parte da história dos judeus e parte da história do Brasil (I e II Guerra, entre outros pontos históricos). Beijos Cris 🙂

Deixe um comentário

Arquivos
Assinar Blog por Email

Digite seu endereço de email para assinar este blog e receber notificações de novas publicações por email.

Seguir modo abstrato
%d blogueiros gostam disto: