Ensaios
Crítica literária

As batalhas de uma guerra de egos e preconceitos.

livraria

Observo que no mundo literário, opinar sobre literatura é sempre polêmico. Seja a crítica feita por profissionais, seja feita por leitores comuns até mesmo entre amigos. Polêmico por mexer com egos. Tanto de escritores quanto de leitores.

Um dos pontos cegos disto a meu ver está em não assumir que às vezes pode-se escrever ou consumir obras que não se propõe à profundidade. Embora no entretenimento sempre haja igualmente um discurso –  mas que geralmente já vem pronto -. Ao contrário de obras mais complexas onde o discurso é um tanto aberto e por vezes contraditório. O que pede uma intercomunicação entre autor e publico. E quer se assuma isto ou não, um exercício de raciocínio mais intenso.

E aí que surge a pergunta de quem seria de fato o ‘esnobismo intelectual’ de que tanto ouve-se reclamar. De quem convida à reflexão ou de quem apresenta um discurso pronto pressupondo que o leitor não sabe pensar? Ou ainda, porque descobriram uma fórmula que dá certo (ao menos por um tempo) e alguém precisa ganhar dinheiro?

Mas que atire a primeira pedra quem nunca aprecia algo que não seja tão cult assim. E depois, teria tanto sentido assim ficar preso a busca de uma ‘cultura ideal’ quando isto pode vir a ser uma ilusão? Porém, se não se tem a consciência daquilo que tem mais ou menos qualidade, talvez possa ser algo a se buscar entender como isto é avaliado. Por quê não fazê-lo?

A falta de consciência fica evidente quando se tenta colocar tudo no mesmo patamar. Como se o gosto pessoal pudesse superar elementos lógicos. Claro que gosto não se discute, por ser algo subjetivo e também muito ligado ao emocional; mas qualidade técnica e artística pode sim, ser discutida. Pois existe uma metodologia para tanto. Pode-se não concordar com ela obviamente e este, me parece ser o que acontece no geral. Mas protestar ou desmerecer profissionais sem argumentos razoáveis só demonstra nosso desconhecimento sobre o assunto e não aponta os possíveis equívocos da questão.

Por outro lado, outro ponto não pode ser desprezado. Parece mesmo que às vezes a crítica profissional faz seu trabalho não baseada em metodologia, mas, em subjetividade. O que podemos levantar a questão de que de repente, haja espaço para preconceitos. Quantos autores tidos como geniais hoje, outrora foram tidos como desqualificados pela crítica literária? Será que a metodologia mudara? Tendo a pensar que não, pois ainda ouvimos a voz do rigor literário ao proclamar uma obra como literatura de fato.

E ainda existe neste panorama, um tipo de leitor que parece deleitar-se em depreciar as preferências literárias alheias. Algo tão sem propósito pois ler Shakespeare não faz de ninguém um Shakespeare. Assim como ler livros menos complexos não faz pessoas rasas. Clarice Lispector em sua última entrevista concedida ao repórter Júlio Lerner do programa Panorama na TV Cultura, disse que lia de tudo. De Dostoiévski à romances duvidosos de autores desconhecidos comprados em uma esquina qualquer.

Por fim, também percebo que algo interessante a se fazer quando alguém se propõe a ser escritor, seria administrar o ego. Já alguns leitores, entender que quando uma obra é criticada, não é a ele que estão criticando (exceto quando a crítica é diretamente a ele). E a crítica literária poderia fazer seu trabalho com um olhar mais amplo para a diversidade. Que não significa claro, abrir mão da qualidade que se propõe a julgar.

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About the author

Paulistana; gosta de escrever, dias nublados, leituras densas, música, cinema e gastronomia.

2 Comentários

  1. Lilian Lima

    Seguir regras é sempre complicado, não é mesmo? E a liberdade, quem sabe o que fazer com ela? De qualquer forma, a corda sempre quebra do lado mais fraco. Quem conseguir inverter este paradigma dê-se por satisfeito. A sociedades mudam, mudam as regras do jogo. Não é diferente na Literatura. Mas a verdadeira arte… Ah, ela existe, sim… 🙂

  2. Belmira

    Houve um tempo em que se celebrou o bem escrever. Houve um tempo em que se celebrou a literatura. Houve um tempo, sim, em que se vendia a literatura. Os autores eram, sim, consagrados. Eles escreviam romances, manifestos, cartas … escreviam contra a politica, escreviam sobre a sociedade, sempre enviando mensagens do que estava mal… e faziam isto tudo com regra, escreviam em estilos literários. E fosse o tema que fosse, eles seguiam a regra.
    Hoje minha amiga em que se baseia um autor quando escreve um livro? Os autores mais vendidos, diz-me tu que género literário criaram eles? Será que daqui a 50 anos se estudará Dan Brown em literatura inglesa, ou até mesmo a autora do Harry Potter? Será que em Portugal vamos estudar o “Prometo Falhar”? Alguém se lembrará por exemplo do Meu Pé de Laranja Lima?
    A critica assim como a produção de novos autores alterou-se. Por isso se vê tantos gritos e abusos. Talvez porque o autor que se acha literário, que segue tudo à risca não consegue vender. Mas a culpa não é dele. De quem é? Talvez das más politicas de educação? Talvez do desenvolvimento exagerado da sociedade? Talvez da mudança de mentalidades? Não sei!

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