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The Knick

O nascimento da medicina moderna.

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Um cirurgião-chefe narcisista viciado em cocaína (Dr. John Thackery / Clive Owen); outro cirurgião assistente que como ‘terapia’ pelo racismo que sofre, nas horas vagas arranja brigas em bares e vive com a cara quebrada (Dr. Edwards / Andree Holland); uma freira que ajuda mulheres abortarem (Cara Seymour / Irmã Harriet); um corrupto administrador de hospital (Jeremy Bobb / Herman Barrow); uma enfermeira (Lucy Elkins / Eve Hewson) que vive uma vida ambígua e envolve-se em tramas escusas dentro e fora do hospital.

Estes são alguns dos personagens complexos da série americana de TV, The Knick, que teve suas duas primeiras temporadas exibidas no Brasil pelo canal Cinemax entre 2014 e 2015.

The Knick faz a proeza de ter todos os seus personagens fortes; com papéis bem desenvolvidos. E como se não bastasse, os personagens são bem dirigidos e muito bem interpretados. Não é em toda série que vemos tudo isto junto e casando tão bem. Destaco o protagonista na pele de Clive Owen. O ator deu uma identidade ao personagem Dr. Thackery de uma forma fantástica. Seu trabalho nesta série é realmente louvável. Aliás, este personagem é inspirado no Dr. William Stewart Halsted (1852 – 1922). Seus problemas pessoais com as drogas, sua conduta duvidosa como médico e sua personalidade contraditória é um show a parte na série.

Mas se os personagens já são o próprio dilema, o enredo não os desacompanha neste quesito. Também, o roteiro é inteligente e tem vários tons. Drama, humor, questões filosóficas de todas as ordens, mas tudo adequado a alcançar diversificado público. É possível fazer algo de qualidade neste sentido. No entanto, a série que foi aclamada lá fora, passou um tanto despercebida aqui.

A série faz uma reconstrução histórica da medicina de 1900 inspirada no Knickerbocker Hospital em Nova York (o hospital realmente existiu). Por exemplo, as operações eram vistas ao vivo, como um show, por um grupo de estudantes de medicina; ambulâncias eram charretes puxadas a cavalo; havia uma epidemia de tuberculose; a preocupação com a idade média de vida das pessoas (40 anos); e era também um momento importante de descobertas e de avanços na medicina.

Esta última questão é um dos pontos fortes da trama. As experiências médicas na busca pela descoberta de novas técnicas; novos tratamentos e novos remédios. Onde boa parte desta busca é feita de maneira ilegal e aos olhos do politicamente correto, de forma irresponsável. O dilema, é que algumas destas experiências resultam positivamente, porém, o contrário também ocorre. Resultados não bem sucedidos aonde pessoas vão a óbito entre outras consequências.

Dilemas morais e legais a parte, a série provoca a emoção de se acompanhar como provavelmente foi o nascimento da medicina moderna. Como por exemplo, a primeira transfusão de sangue e a descoberta dos variados tipos sanguíneos.

Também, a série provoca a emoção de se lamentar que houvesse práticas que embora legais à época, eram totalmente equivocadas. Eis a ironia do dilema. Uma das práticas que se usava àquela época (mostrada na série), por exemplo, é arrancar todos os dentes de um paciente em caso de doenças mentais. Isto era feito de fato e se não houvesse melhora, partia-se para a remoção de órgãos como amígdalas, adenóide, baço, cólon e estômago.

The Knick é medicina pura e fonte de conhecimento histórico. Tem dilemas humanos, fortes emoções, boas tramas e tudo que uma série precisa ter para que torçamos para que ela tenha mais temporadas. Quem gostou das duas primeiras, agora é esperar pela próxima. A expectativa para a terceira temporada é grande pela sua qualidade, mas também pelo seu desfecho chocante. Felizmente há notícias de que o canal já encomendou os roteiros de seus criadores Michael Begler e Jack Amiel e estão em negociação para o retorno da série produzida por Steven Sodembergh (ganhador do Oscar de melhor diretor pelo filme Traffic em 2000).

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About the author

Paulistana; gosta de escrever, dias nublados, leituras densas, música, cinema e gastronomia.

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