Literatura Húngara
HOMENS EM GUERRA

”Aos amigos e inimigos”

Andreas Latzko nasceu em Budapeste na Hungria em 1876. Já era um escritor com obras publicadas quando combateu na Primeira Guerra Mundial como oficial do exército austro-húngaro em 1914, em um front entre a Itália e a Eslovênia.

Na apresentação do autor, no prefácio do livro, ainda diz que em 1915, após um ataque  da artilharia italiana, ele entra em choque e permanece em tratamento psiquiátrico em Davos, Suíça. É quando escreve Homens em Guerra e publica anonimamente pela editora Rascher-Verlag em Zurique. O que causa um enorme rebuliço e o livro fica proibido de circular em todos os países envolvidos no conflito.

”Esperamos pelo livro, o livro proibido que os guardas espreitavam vigilantemente nas fronteiras para que não viesse envenenar a mentira… […] E, finalmente, um amigo o trouxe, Deus sabe por qual contrabando! […] me lembro de nós lendo-o: entusiasmados com as bochechas ardentes como crianças que leem um livro proibido…”  Stefan Zweig.

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Andreas Latzko

Homens em Guerra é um livro atual e porque não dizer, atemporal. Pois ao que parece, e infelizmente, o homem sempre fez guerra. Mas embora todos concordem de público que sejam contra ela, principalmente nestes tempos ‘civilizados’, onde está posto que as sociedades evoluíram, poucos são os que expõem as mazelas de guerras de uma forma desnuda.

Isto, em nossos dias, em uma era digital e tecnológica, soa irônico dizer. Pois as mazelas de guerras não estão desnudadas diante de nossos olhos praticamente em tempo real? Mas ao que parece, o efeito disto é a cegueira.

Quando algo terrível parece tornar-se banal, algo rompera-se. E então, é preciso reacessar a consciência humana, fazer a religadura com a ideia que independente de crenças e descrenças, é mister que se faça impreterivelmente sagrada: a existência. Mas como isto é possível?

Dostoiévski escreveu em O Idiota que ‘a beleza salvará o mundo’. Eu não duvido que seria possível. A beleza de Homens em Guerra poderia muito bem salvar o mundo. Ao menos das guerras. Mas a beleza precisa de olhos que a enxerguem e corações que a sintam.

Mas o que é a obra Homens em Guerra? Talvez o ‘tentar religar a consciência humana’ da qual mencionei.

Na inserção de um trecho do diário do escritor francês Romain Rolland (1866-1944) no posfácil do livro, há o relato sobre seu encontro com Andreas Latzko em setembro de 1918, onde Latzko teria lhe relatado (entre outras coisas), o seguinte:

”Quando publiquei o meu livro, escreviam-me: ‘Não consigo dormir por duas noites por causa dele.’ E eu respondia:’Como assim? Depois de quatro anos deixando a guerra acontecer você esperou o meu livro para ficar perturbado?!’.” E Latzko conclui: ”É preciso forçar as pessoas a ver e a sentir; é preciso enfiar em suas cabeças a imaginação que lhes falta”.

E Homens em guerra é exatamente isto. Vemos e sentimos através da imaginação, os horrores de guerra. E aí, já entramos em um campo  mais complexo que não vem ao caso discorrer no momento: os efeitos que a literatura, a arte como um todo, causa nas pessoas. Sim, a beleza pode salvar o mundo. A beleza que só os artistas podem recriar mesmo quando mostram o horror.  A beleza de religar o homem a uma consciência mais humanizada.

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O livro é composto por seis contos, cada qual apresentando a guerra de uma perspectiva diferente.

Obs: a partir daqui pode haver spoiler.

Em A Partida, a crítica recai sobre a ideologia em moda à época. O engodo da glória que tem uma guerra. A crítica deste primeiro é bem provocativa pois ela recai diretamente logo sobre quem? As mulheres! Sim, as mulheres. As que foram contaminadas com esta ideologia e ficaram embevecidas por esta fantasia de guerra segundo o conto. Um personagem, um capitão enlouquecido em um hospital militar, diz:

”- Tenho de ir, claro! – repetiu, zeloso, suspirando fundo.  – Todos temos de ir. Quem não vai é covarde, e ninguém quer um covarde. É isso! Você não entende? […] A surpresa foi as mulheres serem cruéis. Elas podem sorrir e jogar rosas; podem abrir mão de seus maridos, de seus filhos, de seus meninos, que elas colocaram mil vezes para dormir, que cobriram mil vezes, que ninaram, que nasceram delas – essa foi a surpresa!”

Em Batismo de Fogoo capitão Marschner tenta ao máximo poupar seu grupo enquanto luta internamente com sua natureza emocional para não ser visto como um fraco ao invés de simplesmente humano. Ao mesmo tempo em que ele censura e inveja secretamente o tenente Weixler. Uma máquina de guerra jovem e fria com toda a frieza que lhe falta.

”Arrasado pela violência de suas impressões, o capitão Marschner rastejou feito um verme pela trincheira e seus pensamentos se voltavam, cada vez mais arrebatadores, cada vez mais desesperados, para o tenente Weixler. Apenas Weixler poderia ajudá-lo, poderia substituí-lo com sua energia gélida, atroz, com sua cegueira em relação a qualquer coisa que não atingisse seu próprio corpo…”

Neste segundo conto ele faz as ‘pazes’ com as mulheres, e usa muito da figura das mulheres chorosas com seus filhos, despedindo-se de seus maridos nas estações de trens. Aqui fica claro que sua crítica às mulheres no primeiro conto não era generalizada mas, algo que não lhe passara despercebido naquela época e fez-se necessário registrar.

No terceiro conto, O Vencedor, a crítica recai sobre militares de alto escalão que nunca estiveram em um front para sentir na pele o medo e ver a morte e o inferno a frente mas, que sonham com a guerra como em um conto de fadas. Pois é quando então eles podem brilhar as custas da vida dos outros e sem sujar as próprias mãos.

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”…os anéis do sol que, atravessando o telhado móvel de folhas, caiam sobre ele, brilhando sobre as cruzes e estrelas que cobriam seu peito em três grossas fileiras. Aquilo que havia para ser entregue pelos governantes de quatro impérios em nome de heroísmo, bravura e honra ao mérito estava ali em sua coleção completa […] E tudo aquilo tinha sido resultado de onze curtos meses de guerra […] Ele passara os 39 anos anteriores de serviço numa monótona rotina…”

 O Companheiro – Um diário, é um conto carregado de acidez. O personagem é irônico e sarcástico de forma dolorida. É o relato de um soldado internado como louco, em um hospital militar. Mas assim como Dom Quixote da Mancha, quando o louco começa a discursar sobre a realidade, é mais lúcido do que os que se dizem lúcidos.

”E agora, o louco sou eu! Está escrito, preto no branco, sobre minha cama. Quando me irrito e exijo sair desta casa que deveria prender os outros, recebo tapinhas tranquilizadores como se eu fosse um cavalo tímido. Mas os outros estão livres! […] Ninguém se rebela! […] Vejo a corja toda! […] Esses loucos permanecem soltos e podem produzir, com sua miserável vaidade…”

A Morte de um herói é o conto mais curto e me parece ser um conto surrealista (?) onde o autor faz uma metáfora entre a cabeça dos soldados e um disco de vinil que só toca a Marcha Rákózy; uma canção nacional (mas não oficial) da Hungria.

O sexto e último conto, A volta para casa, encerra a obra de forma irônica, mostrando a volta do soldado Johann Bogdán para casa. Um jovem que era o mais belo de sua cidade mas volta com o rosto desfigurado pela guerra. Enquanto o trem se aproxima, seu sofrimento aumenta cada vez mais, pois ele não sabe se será recebido bem pela noiva, parentes e amigos. Uma das primeiras pessoas a encontrá-lo é um corcunda mau caráter por quem ele nunca tivera simpatia.

 Homens em guerra é um livro que se faz necessário sempre. Mais uma vez, parabéns a editora Carambaia por resgatar mais uma obra não somente fantástica mas, muito pertinente. Na dedicatória, Andreas Latzko escrevera: ”Com certeza chegará o tempo em que todos pensarão como eu”.

Só posso desejar que algum dia ele esteja certo.

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About the author

Graduada em Comunicação Social (Rádio e Televisão) com habilitação em roteiro. Paulistana. Gosta de dias nublados, leituras densas, música, cinema, gastronomia, e escrever.

2 Comentários

  1. Chronosfer

    Algo que me assusta é o “sempre atual” em obras que tratam de temas como a guerra, por exemplo. E quando paramos para pensar confirmamos: sempre atual. Livro que chega ao natural para a minha lista. Meu abraço e obrigado por mais uma importante indicação e comentário.

    • leiturasdalee

      Exatamente, Fernando e infelizmente. Livros de guerra são sempre atuais e não sabemos quando o gênero se tornará obsoleto. Obrigada por prestigiar o blog com teus comentários e observações brilhantes. Abraço!

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