Evento
MEMÓRIAS DE UM EMPREGADO

Neste post farei a resenha de Memórias de um empregado e também falarei da palestra que assistí sobre  o livro e seu autor, Federigo Tozzi.

Eu me interessei pela obra sem saber muito dela. Interessei-me considerando apenas o título e a editora. Tenho interesse pela temática ‘memórias/memória’. Seja ficção, ou não. E a editora Carambaia é uma editora nova que já tenho em conta pois ela publica apenas obras raras, que não se encontra no Brasil.

Outro dia fiquei sabendo que iria ter uma palestra  com o tradutor da obra e lá fui eu. O evento aconteceu no dia 11 de novembro, no Instituto de Cultura Italiana em São Paulo. O palestrante e tradutor da obra Maurício Santana Dias, é professor e pesquisador da USP no departamento de Letras Modernas, áreas de Literatura Italiana e Estudos da Tradução. Também, palestrou Maria Betânia Amoroso, professora e pesquisadora da Universidade Estadual de Campinas no departamento de Teoria Literária, Núcleo de Estudos de Literatura e Cultura Italiana e é também livre-docente na área de Literatura Comparada. O ensaio ao final do livro, é de sua autoria.

Na palestra pude saber mais da obra e do escritor que eram desconhecidos a mim. E pelo que disseram, do panorama literário. Enquanto falavam da obra, fiquei eufórica pois o livro prometia ser mais do que eu esperava. Percebi que era o ‘gênero’ que definitivamente é o meu favorito. E o autor, do estilo que aprecio. Sou fascinada por esta coisa de literatura psicanalítica que explora a mente do personagem de forma profunda com escrita poética. Depois de ter lido o livro então, fiquei maravilhada. Parabéns a editora Carambaia que resgatou esta obra para que pudéssemos ter acesso.

Federigo_Tozzi

Federigo Tozzi

Além do ensaio de Maria Betânia Amoroso,  ao final do livro também há uma breve biografia cronológica de Federigo Tozzi e gostaria de ressaltar alguns aspectos desta biografia:

O autor nasceu em Siena, Itália, em 1 de janeiro de 1883. Em 1895 ”é expulso do colégio por mau comportamento e vai estudar na escola de belas artes de onde também será suspenso dois anos depois. Em 25 de outubro, sua mãe morre”. Em 1902, ”abandona definitivamente os estudos. Inicia correspondência com ”Annalena”, pseudônimo usado por sua futura mulher Emma Palagi[…] Após uma briga violenta, rompe com o pai”. Em 1908 ‘‘passa em um concurso e, no dia 5 de março começa a trabalhar na estação ferroviária de Pontedera. Em 10 de maio, consegue transferência para Florença” .

Este contexto real nos remete ao contexto da obra Memórias de um empregado. O fato do personagem Leopoldo Gradi passar em um concurso e ir trabalhar em uma estação ferroviária a contra-gosto, o corresponder-se com uma jovem, os problemas do personagem com o pai, e seu pedido de transferência para Florença, são semelhantes.

Maria Betânia Amoroso escreve em seu ensaio:

”A primeira observação a fazer é que no conjunto da produção do escritor italiano há bem mais do que romances. São extremamente particulares, a meu ver […] mais um exemplo daquele autobiografismo no qual os outros figuraram para a definição do eu…”.

O que os estudos sobre o autor e suas obras indicam – segundo Maria Betânia Amoroso – , é que as obras do autor tinha muito de si mesmo.

memorias

Maurício Santana Dias, Fabiano Curi (fundador da Carambaia) Maria Betânia Amoroso.

Na palestra, Maria Betânia abordou algo que para mim era novidade dentre tantas outras abordagens. A questão das características de autores católicos, que segundo seus estudos, teriam esta coisa da angústia, do sofrimento, do mistério. Onde a visão particular de mundo, é aterrorizante.

Sobre isto, baseada na obra Tozzi Moderno de Luigi Baldacci,  ela escreve no ensaio:

”Pesa muito também sua impulsiva e agressiva (e curta) luta em defesa de valores de uma civilização católica que ele via definhar no novo século […] crescido dentro do cristianismo, dele se afasta para, em seguida, retornar, porque o cristianismo – aquele cristianismo – era sua dimensão natural. Foi sempre vivido, porém, como uma doença devastadora e sentido unicamente como apocalipse e negação do mundo”.

Percebemos isto nesta obra em alguns momentos. Uma luta interna contra sua própria natureza nas questões morais por exemplo. Isto fica evidente quando ele censura a si mesmo ao sentir-se ansioso por ler as cartas da ‘namorada’ escritas através de uma amiga pois sua ‘namorada’ está doente.

”Quando no envelope vejo aquela caligrafia alongada e forte, um pouco semelhante a amêndoas, abro-o mais depressa; como se fizesse por deferência e respeito a ela […] Não queria esta confusão de sentimentos! […]”

Em outro trecho:

”Quanto às cartas que a amiga dela me escreve, agora estou encabulado de  recebê-las e mais ainda de lê-las. E evito firmemente pensar também nela enquanto escrevo”.

O reconhecimento de Federigo Tozzi como um grande autor demorou de acontecer mesmo na Itália. Memórias de um empregado foi publicado apenas no ano de sua morte, 1920. Mas somente a partir de 1960, por meio do crítico literário Giacomo Debenedetti, é que Tozzi ”passa a ser considerado provável candidato ao cânone literário do século XX”. 

Segundo o ensaio de Maria Betânia, Tozzi tinha dificuldades em se assumir como escritor e também de ser reconhecido como escritor. Até depois de sua morte, Tozzi era visto como um ‘escritor intuitivo’. Ou seja, um escritor a quem falta uma formação intelectual consistente. Mas esta visão sobre ele muda a partir da constatação das obras que ele lera.

A Obra

Memórias de um empregado não chega a ser um romance. Não na definição que conhecemos sobre romance pois o livro é curto, tendo um aspecto de diário. Porém, baseada em seus estudos, para Maria Betânia a obra de Federigo Tozzi seria o primórdio do romance italiano. Gênero que não se consolidara nesta literatura.

Para ela, apesar do aspecto de diário, estudos minuciosos revelaram um texto pensado, construído intencionalmente. Isto fora observado apenas a partir de 1960, quando Giacomo Debenedetti  percebera nesta obra uma narrativa e não apenas uma explosão do ‘eu’.

Na palestra, o tradutor Maurício Santana Dias o comparou com os escritores Kafka e Robert Walser. E disse que sua forma textual fragmentada lhe dão aspectos contemporâneos: a exploração da inquietação, das paisagens mentais, do olhar inquieto, do não se resolver na narrativa, o uso de uma estrutura paratática, a escrita da neurose.

A estória em si é simples. Um jovem que vive aparentemente sem objetivos na vida e então é forçado pelo pai a concorrer através de concurso público, a uma vaga na estação ferroviária para trabalhar em outra cidade. Ele consegue a vaga e parte.

O livro é escrito como se fosse um diário e parece não ter um fio (apesar de ter subliminarmente). Cada fragmento é datado no alto da página, o dia que o trecho fora escrito. Os fragmentos ora tem algumas páginas ora são curtíssimos. Há páginas que só tem algumas frases por exemplo. Mas são muito mais que os registros das impressões do personagem. É um desnudar-se, um desaguar de sua dor existencial. De como ele sente a existência, de como as pessoas o tratam:

”Pelas ruas, todos reparam em mim. As moças, que voltam ao trabalho nos estabelecimentos industriais, se riem de mim.”

De como ele vê a si mesmo e o mundo:

”Eu me censuro por ser mau; pois, no fim das contas, é pior para mim. No entanto, sinto o lamento de tantas coisas boas que vêm espontaneamente; por si. Fui eu, portanto, que quis ficar longe dessa realidade tão amena! E porquê? Fui eu que tranquei minha alma para sempre; como quando, ainda menino, queria ficar só e me punha a observar, pela porta entreaberta, aqueles que conversavam dentro da sala. Quem se arrepende sou eu, e depois faço sempre a mesma coisa; inebriando minha alma com uma risada”.

 Me parece comum que personagens extremamente sensíveis e profundos sempre se vejam como pessoas más. Dostoiévski começa Memórias do Subsolo com seu personagem fazendo justamente esta afirmação: ”sou um homem doente… Sou  um homem malvado”.

É como se quanto mais humano se é, mais se confesse suas fraquezas e admita seus erros. Enquanto os tolos, os homens medianos, destituídos de sentimentos mais elevados afirmassem justamente o contrário: ”eu sou bom e mereço o melhor”. Ainda que para isto, passem por cima de tudo e de todos.

”Gosto de sentir essa censura; contanto que o dia termine depressa, atravessando o espessor de minha juventude sem deixar sinal. Então parece que escapo da morte, me ocultando em mim mesmo; com um medo que me corta a respiração. Enquanto nos espaços de minha existência sua sombra passa; e eu fecho os olhos para não vê-la. E certas vezes, tenho medo de não voltar a abri-los”.

Aqui neste trecho vemos um embate conturbado e contraditório entre a negação da existência e ao mesmo tempo, a negação da morte. E parece ser recorrente autores com esta contradição interna escrever coisas tão profundas e belas.

Enfim, uma obra sublime. Sua escrita é perfeita. E Federigo Tozzi é um autor que deve estar nomeado entre os melhores com certeza.

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About the author

Graduada em Comunicação Social (Rádio e Televisão) com habilitação em roteiro. Paulistana. Gosta de dias nublados, leituras densas, música, cinema, gastronomia, e escrever.

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