Literatura Hispânica
DOM QUIXOTE DA MANCHA

 

”Cada um é filho das suas obras. ” (Dom Quixote)

Sabe aqueles livros que você sempre quer ler e o tempo vai passando e você nunca os lê? Pois é. Dom Quixote da Mancha ou melhor, O Engenhoso Fidalgo D. Quixote da Mancha era um destes livros. Era, porque finalmente acabei de lê-lo. Eu prefiro colocar uma imagem de capa da internet nas resenhas mas não achei nenhuma com qualidade desta edição.

Existem várias edições desta obra mas eu li a edição da editora Record, um  calhamaço de 570 páginas. Confesso que demorei no começo para me acostumar ao tipo de texto. Na nota dos tradutores é comentado sobre os desafios de se traduzir uma obra antiga como esta. A ideia era traduzir para um português moderno sem perder sua essência, sem parecer uma adaptação.

Não diria que ficou um português moderno. Tanto é que tive dificuldades no começo mas, passado o estranhamento inicial adaptei-me. Sabe aquela linguagem meio bíblica? É mais ou menos assim. Como auxílio ao entendimento, eles fizeram uso das notas de roda pé. Não foi muito agradável ler o livro tendo que recorrer a todo instante as notas. Mas, acabei também por acostumar-me com isto.

O livro dispensa comentários quanto a sua importância. É um clássico e ponto final. Gostei imensamente do livro mas não posso dizer que seu estilo é um dos meus preferidos. Gostei muito dos personagens do Dom Quixote e do Sancho Pança. Suas aventuras, seus diálogos ora deliciosos, cheios de sabedoria, ora divertidíssimos. Ri muito com o a esperteza ingênua e um tanto interesseira do Sancho Pança e o heroismo desvairado de Dom Quixote.

Em suma, Dom Quixote de tanto ler novelas de cavalaria ficou louco e resolveu sair pelo mundo em aventuras a fim de resgatar a tradição dos cavaleiros andantes. Para isto, convenceu seu vizinho Sancho Pança para ser seu escudeiro, prometendo-lhe um pedaço de terra que ganharia como uma espécie de despojo de uma destas aventuras. O incrível é que Sancho Pança acreditava em tudo que Dom Quixote em sua loucura lhe dizia embora estivesse vendo que a realidade era outra. Como por exemplo, na primeira aventura que tiveram juntos. Enquanto Dom Quixote via gigantes, Sancho Pança via apenas moinhos de vento que de fato eram. Dom Quixote com certeza é uma espécie de anti-herói. E mesmo louco a ponto de confundir moinhos de ventos com gigantes, fazia discursos bem racionais e cheios de sabedoria.

Já as estórias paralelas não me atraíram tanto a não ser uma ou outra. Como a dos dois amigos Anselmo e Lotário. Onde Anselmo resolveu colocar a prova a fidelidade da recém mulher Camila usando o próprio amigo. Revelando assim, os aspectos humanos destituídos do seu modelo ideal. O final desta estória paralela é bem ao estilo grego.

A outra estória paralela sobre Lucinda e Cardênio, D. Fernando e Dorotéia é muito interessante. Mas por questão de gosto, a parte da resolução desta segunda estória ao estilo novela, não me agradou tanto. Mas obviamente faz parte do estilo da época esta coisa dos dramalhões, das coincidências, das grandes revelações, dos finais felizes, etc.

Afora o aspecto do livro como tendo lições de vida e ter um forte moralismo cristão, confesso que algumas coisas ficaram sem entendimento como a própria figura do personagem D. Quixote que ficara louco por conta de ler muitos livros de novelas de cavalaria. Não sei se aqui coube uma critica do autor ou o que significaria isto. Logo no início há uma queima do acervo literário de Dom Quixote pelos personagens do cura, do barbeiro, sua sobrinha e sua empregada. Porém, os livros que iam para o fogo eram obras que realmente existiam na época. Sendo salvo somente um ou outro livro que o cura ou o barbeiro achasse muito importante.

Mas por fim, penso que Dom Quixote não é louco mas sim, um sonhador.

“Sonhar o sonho impossível,

Sofrer a angústia implacável,
Pisar onde os bravos não ousam,
Reparar o mal irreparável,
Amar um amor casto à distância,
Enfrentar o inimigo invencível,
Tentar quando as forças se esvaem,
Alcançar a estrela inatingível:
Essa é a minha busca.”

(Dom Quixote).

OBS: Esta edição da editora Record não contém a obra completa.

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About the author

Graduada em Comunicação Social (Rádio e Televisão) com habilitação em roteiro. Paulistana. Gosta de dias nublados, leituras densas, música, cinema, gastronomia, e escrever.

10 Comentários

  1. fasango

    Esse livro da foto corresponde a primeira parte de D.Quixote, um tremendo desserviço da editora Record que publicou uma excelente tradução, senão a melhor, de Carlos Nougué e José Luiz Sánchez, porém pela metade, infelizmente.

    • leiturasdalee

      Olá, Fasango. Você sabe de alguma edição completa em português? Obrigada pelo comentário. Abraço.

      • fasango

        Olá, bom dia, infelizmente a resposta é negativa, vou transcrever o e-mail que mandei ao SAC da editora Record e a resposta.

        ” Enviada em: domingo, 19 de abril de 2015 01:16 >

        Olá, em 2005 a editora Record lançou o primeiro livro de O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote da Mancha com tradução de Carlos Nougué e José Luis Sánchez em comemoração aos 400 anos da primeira publicação deste.Em uma entrevista realizada com o tradutor Carlos Nougué e que foi publicada numa dissertação de mestrado de Silvia Beatriz Cobelo, (disponível em : http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8145/tde-02022010-140637/pt-br.php),
        o tradutor afirma que por força de contrato e apesar da sua preguiça, o segundo
        volume estaria à venda no fim de 2009 -o que não ocorreu. Então, gostaria de
        saber da editora e tomando em consideração que neste ano de 2015 completam-se
        400 anos da publicação do segundo livro, há possibilidades deste lançamento?
        Grato pela atenção.”

        Resposta: Date: Wed, 22 Apr 2015 11:14:25

        “Bom dia! Obrigado pelo contato. Lamento não poder atendê-lo neste momento, mas este livro está esgotado, sem previsão de reedição. Recomendamos que tente o site http://www.livrosdificeis.com.br ou http://www.estantevirtual.com.br .
        Se tiver interesse por qualquer outro título do nosso catálogo, estamos à disposição.
        Aproveito para convidá-lo a integrar nosso grupo de leitores preferenciais e assim passar a receber informativos de lançamentos e campanhas com ofertas e descontos.
        Cordialmente, Adler Mendes ”

        Note que o Sr. Adler Mendes não entendeu a pergunta ou procurou ser evasivo

        Minha réplica:

        Enviada: quarta-feira, 22 de abril de 2015 13:46:26

        “Boa tarde! Caro Sr. Adler Mendes, ou o senhor não entendeu o que escrevi ou não me fiz entender direito, antes porém gostaria de fazer um esclarecimento. A obra de Cervantes é composta por dois livros, a edição do primeiro lançado em 1605 e o segundo em 1615 pouco antes de sua morte. Em nenhum momento perguntei sobre a reedição do primeiro livro, na verdade, perguntei sobre o lançamento do SEGUNDO LIVRO que nas palavras do próprio tradutor brasileiro Carlos Nougué seria lançado no fim de 2009 (vide a entrevista na tese de doutoramento de Sivia Cobelo) e que até o momento não foi publicado. Obrigado pela informação. ”

        …nunca me responderam, abraços!

        • leiturasdalee

          Fico muito grata pelas informações. Acho que se faz necessário um adendo em minha resenha sobre isto. Muito obrigada!! Abraços.

  2. Chronosfer

    Livro cuja leitura é um exercício extraordinário de compreensão tanto da vida interior quanto da realidade do lado de fora e também vai nos testando aos poucos para outras tantas realidades da vida e de nós mesmos. Livro essencial. Meu abraço.

    • leiturasdalee

      Muito bem dito, Fernando. Adoro tuas opiniões tão cheias de sensibilidade. Obrigada! Grande abraço.

  3. Rômulo Pessanha

    É lindo, fala sobre tentar, mesmo quando estamos desacreditados de tudo, é exatamente o momento que somos mais fortes e não temos mais nada a perder.

    • leiturasdalee

      Sim, Rômulo. Uma espécie de reinvenção da realidade. Aquela coisa que Cecília Meireles disse de que a vida só é possível reinventada. Abraço 🙂

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