Livros Reportagens
O LIVREIRO DE CABUL

Depois que li O Livreiro de Cabul, soube que houve muita polêmica em volta desta história. A autora foi processada pelo livreiro que alegou prejuízos pessoais por ter sua vida exposta. Parte dos direitos autorais foi para uma instituição de literatura afegã. Alguns questionam se as histórias são fictícias e o livro ganhou uma versão resposta do próprio livreiro no livro Eu Sou o Livreiro de Cabul. Pelo que andei lendo em algumas resenhas por aí, ele não convenceu muito.

O Livreiro de Cabul, tem como pano de fundo as consequências do Talibã no Afeganistão. Apresenta  parte do saldo de sua destruição. Atrazo cultural, tecnológico, falência de companhias importantes como a Ariana Afghan Airlines, prejuízo ao turismo, sem mencionar as mortes, torturas, prisões, etc. Uma coisa que me surpreendeu foi a menção da prática do homossexualismo entre guerrilheiros afegãos. Não pela existência da coisa em si mas pela hipocrisia que a questão revela.

”Em partes do Afeganistão, principalmente na região sudeste do país, a homossexualidade é muito difundida e aceita tacitamente. Muitos comandantes tem vários amantes jovens, e é frequente ver homens de idade andando com um bando de garotos […] Os comandantes não vivem apenas sua homossexualidade, a maioria tem esposa e um monte de filhos. Mas raramente estão em casa e passam a vida entre homens. Sempre há grandes dramas de ciúmes entre esses jovens amantes, não são poucas as vinganças mortais já encenadas por ciúme de um jovem amante que se dividiu entre dois comandantes. Certa ocasião, dois comandantes começaram uma batalha com tanques dentro de um bazar na disputa por um amante. A batalha acabou com dezenas de mortos.”

Mas a história principal mesmo, é a de uma família afegã de classe média, a família de um livreiro em Cabul. Para mim foi um choque este livro porque eu li a pouco tempo Eu Sou Malala que também apresenta uma família muçulmana e as diferenças entre elas me pareceram abismais. Ressaltando que a família de Malala é paquistanesa e a do livreiro Sultan Khan, afegã. Ressalto isto apenas para informação e não como uma comparação de origem das famílias pois isto é algo que deve fugir de qualquer julgamento superficial e simplista.

Os nomes dos personagens no livro são fictícios mas segundo a autora são baseados em pessoas reais.

Achei difícil resenhar o livro porque somos levados a acreditar que as histórias sobre a família do livreiro são reais mas por conta da polêmica, não podemos afirmar categoricamente. O que temos de fato é que o livro foi escrito pela jornalista norueguesa Asne Seierstad que conta sua experiência como correspondente de guerra quando em novembro de 2001, ela acompanhou comandantes da Aliança do Norte nas ofensivas contra o Talibã.

As ofensivas que ela acompanhou se deram em vários locais: no deserto perto da divisa como o Tadjiquistão, nas montanhas de Hindu Kush, no vale do Panshir e nas estepes ao norte de Cabul. Segundo seus relatos, ela dormiu em chão de pedra, cabanas de barro, ficou na linha de frente, viajou em boleia de caminhões, veículos militares, a cavalo e a pé. Como todo correspondente de guerra provavelmente deve fazer.

Depois que o Talibã caiu nestes lugares, ela conheceu o livreiro afegão a quem ela chama de Sultan Khan. Um livreiro bem sucedido em Cabul com sua história de luta para manter sua livraria aberta e proteger o acervo de seus livros do regime do Talibã. Ela o conheceu em sua livraria e entre uma conversa e outra e compras de livros, um dia Sultan a convidou para um jantar em sua casa. Foi quando ela teve um contato mais íntimo em como uma família afegã classe média convive dentro de suas casas. Surgiu disto sua ideia de que aquela família deveria virar livro e no dia seguinte ao jantar, ela conversou com Sultan sobre isto e ele aprovou. Ela então propôs à ele que ela precisaria se mudar para sua casa a fim de acompanhar sua família e assim, escrever o livro. Sultan aceitou com um seja bem-vinda.

Os relatos segundo ela, são de situações que ela presenciou e de histórias que eles e outros lhe contaram. Como ela se instalou na casa da família e provavelmente os acompanhou a todos os lugares, o livro tem um aspecto documental no geral e alguns momentos me pareceu um tanto romanceados. Mas achei o livro  bem escrito quanto a forma. Ela não usa apenas das descrições e relatos. A escrita é uma mistura de texto jornalístico e prosa e ela amarra os pontos e contrapontos das histórias e isto, revela por fim as muitas contradições destes ‘personagens’.

Voltando à comparação entre a família de Malala e a da de Sultan que citei no início, enquanto o pai de Malala nos faz admirá-lo, isto não acontece com o livreiro. A princípio, temos um livreiro que enfrenta de certa forma o Talibã para manter sua livraria aberta e revela um homem apaixonado por livros; pelo valor cultural que eles tem. Reconhece o Talibã como um atraso em todos os sentidos e como responsável pelas mazelas que assolam o seu país àquela altura. Porém, a admiração despertada fica apenas nestes aspectos. No mais, Sultan desperta outro sentimento: desaprovação.

Ziauddin (pai de Malala) e Sultan (o livreiro) tem algo em comum: resistir o Talibã por um ideal ligado à cultura. Os dois pagaram um preço por isto. Ziauddin teve a filha baleada e quase morta e Sultan, foi preso; tendo boa parte de seus livros destruídos. A ironia disto é que Ziauddin pagou o preço pela liberdade da filha e outras mulheres estudarem. Já Sultan, apesar da obstinação pelos livros e seu valor cultural, tirou os filhos da escola a contragosto deles para que trabalhassem em seus negócios e as mulheres de sua família eram proibidas por ele a estudarem.

Ziauddin e Sultan são antagônicos em termos de personalidades e atitudes. Um é generoso e o outro, mesquinho. Um é complacente o outro, tirano. Ziauddin quer ver sua filha ‘livre como um pássaro’. Sultan aprisiona suas mulheres como pássaros na gaiola. Ziauddin é monogâmico e Sultan, não.

Sem entrar no mérito da questão – monogamia e poligamia -, Sultan a certa altura, com vários filhos e a mulher já não mais jovem, decidira que era hora de alegrar-se com uma nova esposa. A cultura muçulmana permite que o homem muçulmano tenha direito a isto. Mas ao contrário de outros muçulmanos que se casam com mais de uma mulher e convive maritalmente com todas, Sultan cortou relações maritais com a primeira esposa após o segundo casamento. Ela teve de continuar vivendo sob o mesmo teto com o novo casal porém, como se não tivesse marido embora, devesse cumprir suas tarefas domésticas para com ele e para com a nova esposa. A outra opção, seria a primeira esposa morar com algum parente e perder todos os direitos.

Sultan casou-se com a nova esposa. E este é o outro lado também crítico da questão. Ele, um homem de quase sessenta anos casou-se com uma adolescente assustada, chorosa por ser obrigada pela família a isto. É uma questão cultural. As moças muçulmanas casam-se com quem a família permite e a questão envolve dinheiro, a posição social do noivo. A autora diz que paixão para a mulher afegã é tabú e as mulheres são objetos de troca e venda.

”Elas protestam ”se suicidando ou cantando” – Sayed Bahoudine Majrouh.

Este poeta afegão segundo a autora, havia reunido num livro, poemas de mulheres pashtun (paquistanesas). Os poemas são passados oralmente entre as mulheres. O poeta fora assassinado por fundamentalistas em 1988. Os poemas são chamados landay que significa, curto. Segundo o poeta, ”como um grito ou uma facada”. São poemas reveladores:

”Pessoas cruéis veem um velhinho a caminho da minha cama e ainda me perguntam por que choro e arranco os cabelos.”

”Meu Deus! De novo me mandastes a noite escura e de novo tremo da cabeça aos pés por ter que subir na cama que odeio”.

A lei islâmica diz que os noivos não podem nem olhar-se nos olhos antes do casamento porém, segundo o livro, Sultan pagara a família da adolescente um valor a parte para poder estar a sós com ela em seu quarto antes do casamento. A ironia disto vem de seu zelo pelas leis islâmicas e os recorrentes julgamentos da moral dos outros.

Para os afegãos, quando o pai de família morre, cabe ao filho mais velho a autoridade sobre os demais parentes (sejam estes homens ou mulheres). Sultan neste caso também desperta desaprovação. Mas neste ponto, me pareceu que a questão do peso das leis islâmicas depende mais do chefe da família em usar desta autoridade que o Islã lhe dá. No caso de Sultan, ele a usa com rigor. E a usa também para ditar suas próprias regras que vão de encontro exclusivamente as suas prioridades pessoais.

Como comerciante, do ponto de vista de honestidade, ele também deixa a desejar. Mas enfim, são muitas as contradições do ‘personagem’ Sultan.  E não somente dele mas de outros entes da família e conhecidos. As contradições parecem estar impregnadas em todos descritos na história. Mesmo aqueles que parecem ser as vítimas. De adultos à crianças. 

O aspecto que mais me comove no livro é justamente este panorama do que é ser uma mulher afegã muçulmana e seu ciclo de vida. Nascer e não ter seu nascimento celebrado por ser mulher. Acostumar-se de que todos os esforços da família serão para os irmãos homens. Casar-se com quem a família assim decidir mesmo contra sua vontade. Ter filhos e quanto mais filhos tiver, mais bem vista será. Aceitar as novas esposas do marido e ser uma exímia dona de casa. Sem mencionar as muitas restrições e regras que para nossa cultura são impensáveis mas eu precisaria me estender muito mais na resenha.

A satisfação pessoal destas mulheres parece depender da vontade de terceiros (pais, familiares homens e maridos). A satisfação acaba dando-se por um acaso e com muita sorte. Por sorte, se casará com quem ama. Por sorte, o esposo não se casará com outras mulheres. Por sorte a mulher não será apenas uma parideira de filhos e empregada doméstica. Por sorte ele a deixará estudar e trabalhar. E enquanto solteira, por sorte terá pais que não impõem estes aspectos da cultura à filha. 

O que parece no livro, é que a mulher afegã termina por submeter-ser e acostumar-se. Ela acaba encontrando um consolo, uma alegria em alguma coisa. Nos filhos, em um vestido bonito, em fofocar da vida alheia, enfim, distrair-se para não afogar-se em mágoas e perceber que a vida passou e junto com ela, a juventude, os sonhos, as esperanças. A mulher afegã nasce para que outros decidam sua vida.  

Achei que a jornalista procurou ser imparcial diretamente porém, subjetivamente o julgamento aparece com as amarrações que ela faz das situações. No caso dos leitores, quando lemos um livro, não temos como não julgar os personagens a partir do que foi escrito pois este julgamento que fazemos é feito de forma automática a partir dos fatos apresentados e das características dos personagens – sejam estes fictícios ou não -. Obviamente a porção apresentada da história é apenas um recorte de um todo e que nos é apresentada com a subjetividade de outra pessoa. Mas o fato é que estamos cansados de ver relatos parecidos no oriente.

O restante do todo das histórias que lemos tem chance de ser semelhante ou diferente. No caso da realidade das mulheres muçulmanas infelizmente parece que é recorrente. Mas com certeza, não é impossível ser diferente. Ziauddin, pai de Malala, está aí para contar outra história.

 

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About the author

Graduada em Comunicação Social (Rádio e Televisão) com habilitação em roteiro. Paulistana. Gosta de dias nublados, leituras densas, música, cinema, gastronomia, e escrever.

4 Comentários

  1. Isabele

    Eu preciso vencer o ranço que eu tenho com a cultura muçulmana e ler esse livros. Depois que eu li a biografia Infiel, de uma somali assolada pelo islamismo, peguei uma raiva sem tamanho por toda a cultura e modo de viver. Sei que isso é muito errado e estou tentando transpor essa barreira.

    • leiturasdalee

      Eu nunca havia me interessado. Minha primeira experiência foi com Eu Sou Malala e apesar de todo o contexto achei uma família bem exemplar dentro de tanto horror. Aí vem este Livreiro de Cabul e não sinto o mesmo. As famílias são bem diferentes. Acho que o que mais revolta é a questão feminina, neah?

      • Isabele

        Com certeza a questão feminina é a mais revoltante. Pelo que é mostrado pra gente, a cultura, religião deles gira em torno da opressão da mulher.

        • leiturasdalee

          Pois é. O Livreiro de Cabul mostrou mais desta parte. 🙁

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