Literatura Israelense
O MESMO MAR

o-mesmo-mar-amos-oz-13936-MLB4450304218_062013-O

 Amós Oz é um escritor israelense que já faz parte dos meus favoritos. Gosto muito de sua escrita. Ele consegue escrever coisas espinhosas de uma forma belíssima. Sua forma de escrever é poética, é provocativa, é sensual. Transgride sem agredir.

O Mesmo Mar, é dividido por capítulos curtíssimos. Cada capítulo tem um título interessante e leva de uma à três páginas no máximo. A linguagem é uma mistura de prosa, poesia e ficção mesclada a uma nuance biográfica presente em alguns capítulos, onde o narrador denuncia ele mesmo no meio da estória.

No início, dá uma estranheza. Parece que está tudo desconexo e que não irá dar certo este tipo de narrativa. Mas aos poucos, imergimos na estória através desta forma diferente de escrita e ela cresce aos poucos. Quando você se dá conta, já está em alto mar.

A questão judaica, parece sempre estar presente na obra de Amós Oz de alguma forma. Aqui não é foco mas ele faz metáforas inclusive fazendo alusões com as temáticas do judaísmo. Mas isto é pano de fundo. A estória principal é sobre uma espécie de ‘triângulo amoroso’.

Albert Danon, é um contador fiscal que trabalha em casa. Um homem de sessenta anos que perdera a esposa vitimada pelo câncer. Seu filho, Enrico David (Rico), decide viajar pora o Tibet por um bom tempo para esquecer a morte da mãe e deixa para trás Dita, uma jovem independente e livre. Ela é uma espécie de namorada sem compromisso de Rico e na ausência dele, vai morar na casa do ‘sogro’ depois de receber um golpe de um produtor para o qual ela vendera seu roteiro ficando assim, sem dinheiro.

O Sr. Danon se encanta por Dita e fica difícil para ele suportar sua presença na casa sem sentir-se culpado. Tudo isto é apresentado de uma forma poética, como um jogo de esconde-esconde. Enquanto isto, Rico se consola com Maria, uma prostituta portuguesa já não tão jovem mas, que acalenta a solidão do jovem viajante. Esta relação é um tanto freudiana. Há algo de ‘Complexo de Édipo’ no ar. Pelo menos a mim pareceu.

Ainda que morta, a presença da mãe  é uma constante na estória demonstrando sua influência na vida da família. Há passagens belíssimas sobre sua morte, e textos que fazem alusão a sua presença mesmo depois disto. Talvez uma forma do autor lidar com a morte da própria mãe que se suicidara.

Em nenhum momento há moralismos, condenações a ninguém. Todos são livres e tudo parece tão compreensível. Pelo menos é assim que o autor nos faz sentir e é assim que ele faz seus personagens pensarem no final das contas.

Afora este ‘triangulo amoroso’ há muitas passagens belíssimas das memórias do Sr. Danon, do Rico, e do narrador. Terminarei a resenha com um dos belos curtos capítulos:

Parece

Noite. A brisa sulca o jardim. Um gato,
parece um gato, pisa de leve entre arbustos, sombra
dentro de sombra passageira. Ele fareja ou adivinha
algo que de mim se oculta. O que a mim não cabe sentir
acontece lá fora, sem mim. Os ciprestes
balançam de leve, negros, em movimentos tristonhos,
parece, ao lado da cerca. Alguma coisa ali toca
em alguma outra coisa. Algo morre. A rigor
tudo isso acontece aqui, bem diante dos olhos
que observam o jardim, pela janela. Parece.
Na verdade tudo isso sempre aconteceu e acontecerá.
Só que pelas minhas costas

Comente via Facebook

Comente via Facebook

About the author

Graduada em Comunicação Social (Rádio e Televisão) com habilitação em roteiro. Paulistana. Gosta de dias nublados, leituras densas, música, cinema, gastronomia, e escrever.

Deixe um comentário

Arquivos
Assinar Blog por Email

Digite seu endereço de email para assinar este blog e receber notificações de novas publicações por email.

Seguir modo abstrato
%d blogueiros gostam disto: