Literatura Russa
RECORDAÇÕES DA CASA DOS MORTOS

 

Condenado à morte aos 28 anos em 22 de novembro de 1849, Dostoievski mais vinte e um companheiros foram levados sem camisa em um frio de 20 graus negativos a um cadafalso na Praça Semionovski.

Já vestidos com as túnicas mortuárias e amarrados a postes em grupos de três, quebram espadas sobre suas cabeças. Chegam padres. Cada preso diz suas últimas palavras. Murmuram despedidas entre si. Os soldados carregam os fuzis e os tambores começam a rufar. Imagine o coração de nossa estrela maior da literatura neste momento?!

Mas os tiros não foram ouvidos. Era apenas um susto que Tzar mandara dar nos ‘conspiradores’. Em seguida, os presos políticos foram levados à uma prisão na Sibéria. Aqui na orelha do livro diz prisão perpétua em outros lugares diz apenas prisão. Mas o fato é que Dostoievski cumpriu quatro anos de trabalhos forçados. Tempo suficiente para fazer dela seu laboratório criativo conhecendo o ser humano em uma situação de cárcere e não somente, conhecer a fundo a mente destes indivíduos.

Em Recordações da Casa dos Mortos, Dostoievski nos apresentar este submundo da prisão e sua experiência como detento. O livro é escrito de forma ficcional, como uma espécie de um diário que alguém achou e passou a lê-lo. No caso, o narrador da estória (um personagem fictício).

O narrador conhecera um ex-detento – Alexandr Petrovitch Gorjantchikov -, dono do diário ”Cenas de uma Casa de Mortos”. Um homem que assassinara a mulher e cumprira sua pena. Depois de solto, ganhava a vida dando aulas particulares em sua casa. O narrador tenta travar amizade mais íntima com Alexandr pois este lhe inspira curiosidade mas, Alexandr esquiva-se e depois de um tempo, adoece e morre. É quando então o narrador vai até sua casa, acha o diário e põe-se a lê-lo sem mais aparecer na estória até o seu final dando espaço somente a narração do ex-detento.

Mas talvez pelo fato de ser apenas um subterfúgio para o livro, em nenhum momento na estória o personagem fala de seu crime – o assassinato de sua mulher -. Quando ele refere-se a ele mesmo é para descrever seus sentimentos de estar preso, suas impressões do lugar e das pessoas. Ou quando alguém faz ou fala alguma coisa com ele. De resto, ele porta-se como um observador. Como um psicólogo analisando cada detento, cada situação, cada movimento, cada olhar, cada sorriso, cada palavra – minuciosamente -.

Alexandr ‘o personagem’ ou seria Dostoievski? Parece ser o único a ver além do  animal enjaulado. Ele constata muitas situações contraditórias. Vê por exemplo sinal de bondade desinteressada em um assassino contumaz. Nuances que nem todos conseguem ver. Não conseguem ver o ser humano por trás da besta fera.

”Vagarosamente se ampliou o círculo de minhas relações embora eu não as procurasse […] Um dos primeiros foi Petrov […] No começo não gostei muito […] Mesmo hoje não saberei dizer o que em mim o atraía […] dinheiro jamais me pediu nem mesmo emprestado; logo, devia me procurar sem ser por interesse propriamente material […] Vinha sempre com ar apressado, como se tivesse deixado em meio alguma ocupação, se do lado de fora permanecesse alguém à sua espera, ou como se tivesse alguma empreitada a completar. Mas ainda assim demorava. Também seu feitio de olhar era esquisito, agudo, esperto, de uma afabilidade sagaz. Olhava para as coisas começando a fixá-las já de longe, como querendo transpassá-las ao âmago […] M., percebendo que ele me procurava, me fez advertências… […] – É o homem mais perigoso e ousado de todo o presídio.”

O personagem é cauteloso, tem medo as vezes mas, não demonstra aos detentos pois tinha muito interesse em estudá-los a fundo. Mesmo constatando que alguns seriam capaz de cometer qualquer atrocidade em um piscar de olhos.

”Essa declaração interessou-me extraordinariamente… E formidável é o seguinte: mantive relações com Petrov durante anos seguidos, conversando com ele quase diariamente; percebia bem que de fato tinha afeição por mim…”

Mas a vida do nosso personagem não era rodeada de amigos. Afora estes raríssimos casos, detentos advindos da nobreza e presos políticos, eram mal visto entre os detentos. Eram desprezados, recebiam gracejos e hostilização e de forma alguma travavam amizades mesmo quando estes primeiros davam abertura a isto.

”Sem saber absolutamente do que se tratava sai também para o pátio e entrei na fila. Só daí a pouco é que vim a perceber algo extraordinário. No momento cuidei que se tratasse de uma chamada […] Em breve me vi rodeado pelos que estavam mais perto de mim, os demais voltados na minha direção. E o ar interrogativo. – O que você veio fazer aqui? – perguntou-me alto e áspero Vassily Antonov […] – Aqui não é seu lugar…”

Uma passagem belíssima do livro é a parte quando da comemoração do Natal. A excitação dos presos, os preparativos, os esforços para se portarem com bons modos evitando as brigas e as confusões; e sobretudo o teatrinho com as peças russas, interpretadas pelos próprios detentos, arrancando altos elogios do personagem que tinha muita cultura. O personagem nos descreve tudo de forma extraordinária tanto visualmente quanto os sentimentos dos presentes e por algum momento, aqueles miseráveis passam de monstros a seres humanos singelos.

Recordações da Casa dos Mortos é um livro que nos faz ver os detentos com outra perspectiva. Pelo menos por alguns instantes, enquanto dura a estória. Começamos o livro com um sentimento desapegado e logo passamos a ter empatia com os personagens.

Só posso concluir que Dostoievski deve ter sido um ser humano magnânimo e que esta experiência deve ter lhe servido – embora de maneira forçada – como um laboratório para conhecer mais a fundo o ser humano e assim, criar os próximos personagens de suas obras seguintes.

 

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About the author

Graduada em Comunicação Social (Rádio e Televisão) com habilitação em roteiro. Paulistana. Gosta de dias nublados, leituras densas, música, cinema, gastronomia, e escrever.

2 Comentários

  1. Livros e Vitrolas

    Esse livro me lembra, da casa da minha avó. ( Não lá não é uma prisão) kkk. Mas uma das férias q passei lá e achei esse livro meio jogado e comecei a lê-lo ainda não sabia muito bem quem era o autor e tals. Mas lembro que gostei dele, me ajudou a passar o tempo.
    Bjuss

    • leiturasdalee

      kkkkk que susto, kkkk. Eu sou suspeita a falar de Dostoievski pq eu me apaixononei por ele, hehe. Bjuu

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