Biografias
EU SOU MALALA

 

”Seremos pregadores da educação” (Malala – em conversa com o pai).

A estória que Malala conta em seu livro Eu sou Malala, é a sua. A de uma menina que leva um tiro na cabeça pelo Talibã por desobedecer sua ordem expressa de que meninas não podem estudar, ir à escola. A tentativa de calar uma voz usada para defender seus direitos e de seu povo. Uma voz que não se calou nem mesmo recebendo ameaças e seu mundo envolta explodindo-se em homens-bomba, escolas destruídas,  assassinatos.

Após o atentado, pessoas do seu povo disseram que não fora coragem mas, imprudência do pai que incentivava a filha a lutar por seus direitos. Esta é uma questão que me fez pensar até onde cada um de nós vamos com nossa coragem.

Parece que pai e filha seguiram a risca o poema tradicional de seu povo pachto que abre a primeira parte do livro.

”Prefiro receber com honra seu corpo crivado de balas, a ter notícias de sua covardia no campo de batalha”.

O pior comentário acho que foi de que o atentado fora forjado. Mas depois que o Talibã assumiu a autoria não restou mais nada a falar sobre este ponto embora outros  comentários continuassem. Obviamente não eram todos de seu povo que diziam despropérios.

Talvez, sentir a ingratidão dos seus após tanta coragem em prol deles, seja a pior das dores.

Mas Malala em seu livro também nos apresenta seu povo pachtum com sua hospitalidade e dignidade. Fala de seu vale Swat, seu bairro Mingora, entre outros lugares cujas paisagens ela descreve como paradisíacos as quais o Talibã colocou-se a destruir.

A princípio, eles usaram um discurso apaixonado, de louvor e honra aos preceitos do Corão. As pessoas começaram a contribuir com o movimento pois parecia uma boa ideia que alguém zelasse pelos seus sagrados ensinamentos muçulmanos. O líder e orador era Fazlullah que através da rádio Mulá FM, transmitia suas ideias. Muitos foram os que contribuíram financeiramente.

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Imagem do livro

Quando então o Talibã fortaleceu-se naquele lugar e começou a enfrentar o governo, o exército e a quem que fosse, deram-se conta de que era tarde demais.

”Meu pai me contou sobre uma mulher que fizera doações generosas ao Talibã enquanto o marido trabalhava no exterior. Quando ele voltou e descobriu que a esposa doara o ouro ficara furioso. Certa noite houve uma pequena explosão na aldeia e a mulher chorou. ”Não chore”, disse o marido. ”Esse é o som dos seus brincos. Agora ouça só o som dos seus colares e de suas pulseiras”.

Eu costumo marcar os livros com post-it de seta colorida nos trechos que possivelmente irei usar nas resenhas. Obviamente não uso todos e escolher os trechos é difícil mas, neste livro a tarefa foi ainda mais árdua porque todo o livro é surpreendente e de formas diferentes. Para o melhor e para o pior. Se a ficção não é capaz de criar família tão corajosa e honrada como disse no início, tão pouco me parece que ela seja capaz de recriar o que acontece nesta parte do mundo. Pois é algo surreal.

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”…o Exército parecia alheio à presença do Talibã.”

”Enquanto isso, os tribunais se ocupavam com outro assunto. No Paquistão, temos a chamada Lei da Blasfêmia, que impede a profanação do nosso livro sagrado, o Corão […] quem ”conspurca o nome sagrado do Santo Profeta” pode ser condenado à morte ou à prisão perpétua.”

Mesmo o Talibã agindo de forma brutal, ainda havia civis que o apoiavam. Por medo, imposição ou pura simpatia. E foi por uma informação do trajeto escola-casa de Malala que ela quase perdeu a vida. Ironicamente, no momento em que Malala levava o tiro dentro do ônibus, sua mãe adentrava pela primeira vez os portões da escola para aprender a ler e escrever.

”Era uma uma época de horror e medo. As pessoas muitas vezes comentavam que o Talibã podia matar meu pai, mas não a mim. ”Malala é uma criança”, diziam. ”Nem mesmo o Talibã mata crianças”.

O pai de Malala é uma figura singular. Sua história é a de um menino com problemas de gagueira que queria ser orgulho do pai e esforçou-se até ganhar um prêmio em um concurso de oradores e dali não parou mais. Estudou e também tornou-se uma figura importante em sua comunidade pois focou sua capacidade de orador na questão da educação das crianças e os problemas sociais de seu país. Foi espelhando-se nele que Malala logo de pequena interessou-se pelo estudo, por ajudar o próximo, por levantar-se contra as injustiças.

”Papai odiava o fato de que a maioria das pessoas não se manifestava. Levava no bolso um poema escrito por Martin Niemoler, que viveu na Alemanha nazista.”

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Imagem do livro

”Naquela noite, o ar esteve cheio de tiros de artilharia e acordei três vezes. Na manha seguinte, tudo estava diferente […] Visitei o máximo possível de estações de rádio e televisão. ”Eles podem nos impedir de ir para a escola, mas não podem nos impedir de aprender […] Falei da ironia de o Talibã querer professoras e médicas mulheres para atender mulheres, mas impedir que as meninas frequentassem a escola para se qualificar para essas atividades”.

Eu sou Malala, é um livro de valor de todos os pontos de vista. A história de Malala se mistura a uma narrativa em ordem cronológica da própria História do país que vai de 1947 – com a criação do Paquistão – até 2013, quando do discurso de Malala na ONU.

A escrita é em primeira pessoa mas não me parece que ela tenha o escrito sozinha. Principalmente a parte histórica. A impressão que dá é que teve muito da jornalista Christina Lamb. O que é apenas um detalhe. O livro é muito bom e mostra a inclinação  precoce de Malala à assuntos políticos. Sua inteligência e argumentação diante dos fatos. Sua personalidade singular e cheia de determinação.

”Esconda seu rosto, as pessoas estão olhando para você” Eu respondia: ”Pouco importa. Eu também estou olhando para elas”. Mamãe ficava furiosa.

”Malala será livre como um pássaro” (Ziauddin, pai de Malala).

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About the author

Graduada em Comunicação Social (Rádio e Televisão) com habilitação em roteiro. Paulistana. Gosta de dias nublados, leituras densas, música, cinema, gastronomia, e escrever.

10 Comentários

  1. Eder Oelinton

    Eu realmente fiquei com vontade de lê-lo, eu acompanhei pela internet a história dessa menina, uma covardia o que aconteceu com ela, e só a prova de superação que ela passou vale a pena ler qualquer coisa a respeito. Muito boa resenha

    • leiturasdalee

      Se puder leia, sim, Eder. A resenha nem faz jus ao livro que ele é. Vale muito a pena ler. Uma história incrível. No bom e no mau sentido (infelizmente). Abraço e obrigada.

  2. Robson Joaquim

    Lee, este livro tenho aqui em casa mas ainda não consegui ler, adorei sua resenha e me encheu de curiosidade por esta leitura. Obrigado.

    • leiturasdalee

      Que bom que gostou da resenha! 🙂 Nossa, é um livro e tanto! Vc vai gostar de ler. É incrível. Ainda mais pela história ser real. Beijo 🙂

  3. Belmira

    Só de ler a sua resenha já estou em lagrimas. No fundo Malala vem mostrar ao mundo que povo é o muçulmano, e que não haja confusões com os outros que por aí andam. Tou certa?

    • leiturasdalee

      Sim, Bel. No livro podemos entender que há os tolerantes e os intolerantes dentre os muçulmanos. Não podemos generalizar. Se tiver oportunidade leia. Vc vai gostar. Beijo. 🙂

  4. Chronosfer

    Um livro essencial e emblemático. Bom tê-lo por aqui. Abraços.

    • leiturasdalee

      Sim! Exatamente. E eu pensei a princípio que fosse um livro que contasse apenas sobre o atentado. Mas ele é isso que vc disse. Abraço

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