Literatura Russa
OS IRMÃOS KARAMÁZOV – Vol. 1

 

Escrito em terceira pessoa, Os Irmãos Karamázov, tem um enredo que desenrola-se em torno de uma família: os Karamázov.

O pai, Fiódor Pavlovitch Karamázov é um viúvo de duas mulheres. Um homem de seus cinquenta e tantos anos; de situação financeira um tanto abastada. Um beberrão despudorado, mentiroso, vil e sovina embora esbanjador quando trata-se de seus prazeres. Mau marido, mau pai, enfim, um mau exemplo de pessoa. Porém, o personagem não nos deixa odiá-lo de todo. Talvez, por ele ser tremendamente engraçado e parecer fazer de suas palhaçadas sua ‘autopunição pública’.

Com a primeira mulher, Fiódor tem apenas um filho: Dmitri Fiodorovitch Karamázov. Com a segunda mulher, outros dois filhos lhe nascem: Ivan e Aliêksei Fiodorovitch Karamázov (Aliócha).

Os filhos, logo na infância são retirados de sua casa e criados por terceiros após a morte da segunda mulher. Jovens, eles retornam à casa do pai cada qual por seu motivo (mesmo sem saberem qual seja ao certo) e aí começam as confusões pois o pai é uma pessoa tremendamente desagradável e a convivência com ele é difícil. Também há uma barreira a ser vencida entre os irmãos pois praticamente eles são estranhos entre si.

Ivan é intelectual e ateu, e evita se envolver emocionalmente e de forma direta nas questões familiares e dos três, é o que menos sabe do porque voltara à casa do pai. Mas, sua frieza me parece um tanto forçada por ele mesmo. Na verdade, me parece que ele quer reencontrar-se consigo mesmo ou algo do tipo. Buscando nos restos daquela família, respostas para suas questões existenciais.

Aliêksei (Aliocha) é o caçula. Uma espécie de seminarista que aspira entrar para um monastério de monges stárietz, um tipo de monge russo. Um personagem encantador. Tão bondoso que parece mais um ser de outro mundo que enche nosso coração de afeto por ele. É um personagem que toma conta da estória, é grande, talvez, o protagonista.

Dmitri, é o filho mais velho. Um ex-oficial do exército e tem a personalidade um tanto semelhante ao do pai. Ele é noivo de uma bela moça porém quer deixá-la por estar apaixonado por uma mulher de reputação duvidosa. Ele disputa esta mesma mulher com ninguém menos que o próprio pai e este é o motivo principal da briga entre os dois que envolverá toda a família. Apesar de tudo, pode-se dizer que Dmitri, ao contrário do pai, seja um homem até honrado.

No início do livro, o narrador conta ligeiramente a estória da família. Dos casamentos de Fiódor, o nascimento dos filhos, a morte das mulheres e sua vida desregrada. Depois, a estória avança para a chegada dos filhos já jovens na casa do pai e aí a coisa desenrola-se com muitas confusões e escândalos.

A partir daqui o texto pode conter spoiler.

Dmitri, o filho mais velho, exige uma parte da herança que alega não ter recebido e Fiódor (o pai) decide ‘lavar a roupa suja’. Porém, em um lugar um pouco inusitado. Eles marcam uma reunião no mosteiro para que o Zossima, um monge stárietz, líder do mosteiro e mentor espiritual de Aliêksei (Aliocha), seja interventor desta questão entre pai e filho. A questão do dinheiro é só uma parte da briga. Este mesmo dinheiro tem a ver com a disputa pela mulher que ambos estão apaixonados. A ideia inusitada mas proposital de marcar a reunião no mosteiro é do pai Fiódor pois Zossima, o monge líder do mosteiro é tido como um santo na região.

Como esperado, a coisa não termina bem por lá, fazendo Aliêksei (Aliocha), sentir-se envergonhado pois ele estima muito seu mentor espiritual. Além de que, a saude do monge está debilitada e sua morte é mesmo esperada para aqueles dias. A partir daqui tudo sai dos trilhos e eles voltam para casa onde as confusões continuam.

Nas obras de Dostoiévski, como pano de fundo do existencialismo, há sempre as questões sociais, a política, o povo russo, a Rússia, a religião. Claro que de uma forma magistral que quase o leitor nem se dá conta. Mas neste livro, parece que estas questões estão mais desenvolvidas abertamente. Sobretudo a questão religiosa. Me pareceu que há uma espécie de anseio por um ‘acerto de contas’ com o divino. Eu não sei nada sobre isto mas, por Dostoiévski ter morrido logo após terminar a obra, fiquei imaginando se não seria seu prenúncio de morte. Uma forma de expurgar suas próprias questões sobretudo as familiares e espirituais. Segundo estudiosos do autor, Dostoiévski sempre abordara suas próprias questões em suas obras. Como por exemplo, os problemas com o pai e seu desejo de que o pai morresse. Isto acontece no livro através dos personagens, os filhos de Fiódor. Esta questão entre o autor e seu pai é tratada inclusive em trabalhos de Freud, como Dostoievski e o Parricídio. 

Dostoiévski era cristão ortodoxo e morrera cristão mas em suas obras ele não suprime sua razão e nelas, põe em xeque a religião e até mesmo deus. Mesmo neste livro, que ao meu ver há um certo ‘louvor’ as virtudes adquiridas com o exercício da ‘consciência espiritual’. O capítulo O Grande Inquisidor é um dos exemplos. Neste capítulo ele critica duramente os sacerdotes. É um capítulo magnífico e o irônico é que é uma conversa entre os irmãos Ivan (o ateu) e Aliêksei (o seminarista). Ivan diz que está tentando escrever um poema e aí, o cita para o irmão. Como nas escrituras, o Cristo está fazendo alguns milagres quando então é preso pelos sacerdotes. Um deles, O Grande Inquisidor, vai até sua prisão e lhe insulta.

”Por que achaste de aparecer agora para nos atrapalhar? Pois vieste nos atrapalhar e tu mesmo o sabes. […] Faz muito tempo que já não estamos contigo, mas com ele [Satã] […] Recebemos dele aquilo que rejeitaste com indignação, aquele último dom que ele te ofereceu ao te mostrar todos os reinos da Terra: recebemos dele Roma e a espada de César, e proclamamos apenas a nós mesmos como os reis a Terra.”

No poema, o Cristo permanece calado e quando o Grande Inquisidor o liberta, antes dele sair da cela, o beija nos lábios. Em um dado momento da conversa, Aliêksei (Aliocha) beija igualmente o irmão nos lábios, imitando o Cristo do poema do irmão. Mas não há nenhuma conotação incestuosa aqui. Ele o faz  porque o irmão diz que irá partir e nem tão cedo tornarão a ver-se.

É desta obra, que surge a tão conhecida frase: ”Se deus não existe, tudo é permitido”. Pois esta é a ideia central sobre a temática religiosa, que Dostoiévski trata na obra.

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About the author

Graduada em Comunicação Social (Rádio e Televisão) com habilitação em roteiro. Paulistana. Gosta de dias nublados, leituras densas, música, cinema, gastronomia, e escrever.

2 Comentários

  1. elis

    (p.358)
    A edição que uso é da Editora 34.

  2. elis

    Olá! Gostaria de fazer uma sugestão: no trecho citado ”Por que achaste de aparecer agora para nos atrapalhar? Pois vieste nos atrapalhar e tu mesmo o sabes. […] Faz muito tempo que já não estamos contigo, mas com ele [Satã] […] Recebemos dele aquilo que rejeitaste com indignação, aquele último dom (o de sujeitar os homens) que ele te ofereceu ao te mostrar todos os reinos da Terra: recebemos dele Roma e a espada de César, e proclamamos apenas a nós mesmos como os reis a Terra.” esse “ele” não refere-se à Sata, mas tao somente ao Estado Teocrático. Personificando, “ele” seria o Papa, a autoridade última da Igreja, que é a personificação de todo o poder de Deus na Terra, com a permissão direta Dele, o que pode ser confirmado no trecho “tu, dizem, transferiste tudo ao papa, portanto, tudo hoje é da alçada do papa […]” e, mais adiante lemos o seguinte: “[…] Tu foste prevenido […], rejeitaste o único caminho pelo qual era possível fazer os homens felizes, mas, por sorte, ao te afastares, transferiste a causa para nós.” (p.348)

    Sobre o Estado Teocrático encontramos o seguinte: “Ficarão maravilhados conosco e nos considerarão deuses porque, ao nos colocarmos à frente deles, aceitamos suportar a liberdade e dominá-los […] diremos que te obedecemos e em Teu nome exercemos o domínio (p.352). […] Não existe nada mais sedutor para o homem que sua liberdade de consciência (para quem deseja dominá-la), mas tampouco existe nada mais angustiante (para quem não sabe o que fazer com ela). […] Em vez de assenhorear-se da liberdade dos homens, tu a multiplicaste […]. […] Existem três forças, as únicas três forças na terra capazes de vencer e cativar para sempre a consciência desses rebeldes fracos para sua própria felicidade: essas forças são o milagre, o mistério e a autoridade. Tu rejeitaste a primeira, a segunda e a terceira e deste pessoalmente o exemplo para tal rejeição (p.353 e 354). […] Corrigimos tua façanha e lhe demos por fundamento o milagre, o mistério e a autoridade (p.355 e 356). […] Hão de surpreender-se e horrorizar-se conosco, e orgulhar-se de que somos tao poderosos e tao inteligentes que somos capazes de apaziguar um rebanho tao violento de milhares de milhões. ao de tremer sem forças diante de nossa ira, […], mas, a um sinal nosso, passarão com a facilidade à distração e ao sorriso, a uma alegria radiosa e ao cantar feliz da infância. Sim, nós o faremos trabalhar, mas nas horas livres do trabalho organizaremos sua vida como um jogo de crianças, com canções infantis, coro e danças inocentes. […] Nós lhe diremos que todo pecado será expiado se for cometido com nossa permissão; permitiremos que pequem […]. Permitiremos ou proibiremos que vivam com suas mulheres e amantes, que tenham ou não tenham filhos –tudo a julgar pela sua obediência–, e eles nos obedecerão felizes e contentes.”

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