Literatura Brasileira
O MENDIGO QUE SABIA DE COR OS ADÁGIOS DE ERASMO DE ROTTERDAM

 

”A loucura às vezes chega quando se é tragado pela perda; é cegueira lúcida que despedaça a alma” Najla Assy.

Ler este livro é beber poesia no gargalo. Um romance niilista-lírico como o próprio autor classifica. Pois fala da degradação humana e da falta de sentido da existência e da nossa insignificância diante da vida; da nossa fragilidade física e psico-emocional de uma forma intensa, profunda, melancólica mas bela. Pois o que detona toda esta visão no personagem é justamente o amor. Um amor tão imenso que o levou às portas da loucura. Mas que por causa deste mesmo amor, a esperança inabalável de reavé-lo, é que ainda não dera cabo da vida.

O autor escreve em primeira pessoa dando voz a um mendigo. Mas não é um mendigo qualquer, é um mendigo culto que gosta de ler e que anda com um livro a tiracolo. Um livro que contém os adágios de Erasmo de Rotterdam.

O mendigo dialoga com um interlocutor mas não temos a fala deste; apenas as respostas do mendigo à ele. Como no programa da TV Cultura, Ensaio, que pelas respostas dos cantores concluímos as perguntas da voz inaudível.

A escrita do livro é vertiginosa, de um fôlego só. Não tem pausas nem capítulos. O livro não é tão volumoso, apenas cento e vinte e sete páginas. Porém, de pura imersão nas camadas profundas do pensamento. Como um fluxo de consciência, o personagem discorre a este estranho tudo que guardara para si em uma década de mendicancia.

A partir daqui o texto pode conter spoilers.

Segundo o personagem, o qual revela apenas a  inicial do seu próprio nome, ‘M’,  há dez anos por vontade própria se colocou na situação de rua por causa da perda de um amor. Uma linda loura, médica oncologista, melancólica mas ao mesmo tempo cheia de vida e ideais, com quem fora casado alguns poucos anos antes dela deixar-lhe o bilhete fatídico que lhe fizera cambalear entre a loucura e a sanidade:

”Lembro-me ainda hoje ⎯ dez anos depois ⎯ daquele bilhete elíptico; não era longo feito sabre. Tinha a concisão do punhal: ACABOU-SE; ADEUS. Os deuses do desamor, implacáveis, condenaram-me duplamente tirando razão deixando memória.”

Eu disse ‘segundo o mendigo’ pois não fica claro se esta história é uma invenção de sua mente como forma de fugir da realidade, ou se isto ocorreu. Embora somos levados a acreditar que sim mas, me ocorreu esta possibilidade. Aliás, o próprio interlocutor também pode muito bem não existir, ser uma invenção do personagem. Os motivos pelos quais o estranho conversa com ele não são mencionados no livro.

O fato é que ele se mostra coeso em seus pensamentos, sensível, extremamente profundo e complexo em suas abordagens, embora haja momentos de insanidade quando entrecorta seu discurso para perguntar ao interlocutor se este está ouvindo My funny Valentine, por exemplo. Uma espécie de trilha sonora dele e da amada, entre outros pequenos delírios semelhantes. Mas todos os delírios sempre ligados a amada, de inicial ‘N’.

A cada cena que se passa a sua frente, ele faz uma reflexão profunda sobre o que vê. Principalmente sobre um grupo de mendigos que está por ali a uma distância dele, do qual ele diz não ter contato pois ele se diz um nômade solitário.

”Veja: indigente recostada na pilastra daquele outro viaduto. Sim: cabelos imundos, desgrenhados; maltrapilha. É possivelmente a mais triste das figuras desde sempre na Terra (…) Tristeza profunda dela atormenta-me. Mesmo dormindo em lugares diferentes a cada semana, nossos caminhos se cruzam com frequência: desventura e desvario se convergem. No silêncio da noite podemos ouvir suas plângerias. A morte será balsâmica. Sim: a todos nós.”

”Veja: levantou-se. Caminha arrastando-se feito lesma. Tristeza possivelmente transformou-a num molusco. Acontece a todos nós. Vida vai aos poucos desfazendo nossa condição humana.”

Também, a cada fato ocorrido no momento, ele correlaciona com alguma coisa vivida entre ele e sua amada. Uma ambulância que passa, algo no céu…

”Veja: helicóptero; ali no alto à esquerda. também ele chama-me à memória meu grande amor. Quero que  minhas cinzas sejam jogadas de helicóptero sobre edifícios gigantescos da gigantesca cidade qualquer – dizia-me como um oráculo, axiomática, confiante de que morreria primeiro. Mas morrerá não senhor: é minha amada imortal”.

E é entre estas análises sobre a vida com relação ao que ele vê naquele momento, e a saudade de sua amada, seus momentos vividos (ou não) com ela, e sua esperança de reencontrá-la que ele vai misturando ao assunto, Erasmo de Rotterdam.

”Mas sei sinto pressinto que vou encontrá-la. Poderá ser amanhã à noite na porta da cinemateca – a quatro quadras daqui. Sim: Semana Mizoguchi. A-hã: também gosto especialmente dele A vida de uma cortesã. Amada sempre admirou esse cineasta feminista. Ficarei todas as noites esperando-a na calçada do outro lado. Poderá ser amanhã; ou depois de amanhã; ou no último dia da mostra desse magistral diretor japonês. Vou encontrá-la (…) Colocava acima de tudo a independência intelectual, a liberdade de espirito e o culto do homem em todas as formas. Estou falando dele, Erasmo de Rotterdam.”

Quando autores fazem citações, parece ser uma forma inconsciente deles mostrarem-se na própria obra. Percebemos ao decorrer deste livro que Evandro Affonso Ferreira faz muito disso e revela-se quando cita personagens de outras obras, músicas e filmes.

Só me resta dizer que o conjunto da obra é maravilhoso. Escrita, estória e personagens magníficos.

Comente via Facebook

Comente via Facebook

About the author

Graduada em Comunicação Social (Rádio e Televisão) com habilitação em roteiro. Paulistana. Gosta de dias nublados, leituras densas, música, cinema, gastronomia, e escrever.

3 Comentários

  1. Belmira

    Fiquei super curiosa e o titulo já tinha sim chamado a atenção, mas a sua resenha foi super! Vou ver se existe por aqui

Deixe um comentário

Arquivos
Assinar Blog por Email

Digite seu endereço de email para assinar este blog e receber notificações de novas publicações por email.

Seguir modo abstrato
%d blogueiros gostam disto: