Livros de Estudos
SOBRE A ESCRITA – A ARTE EM MEMÓRIAS

Nunca li nada ficcional de Stephen King mas assistí alguns filmes de seus livros como os clássicos Carrie a Estranha, A Espera de um Milagre, O Iluminado; e também uma série de TV, Zona Morta. 

Sobre A Escrita – A Arte em Memórias é um tipo de livro que gosto de comprar. Tenho vários no estilo porém voltados para escrita de roteiro de TV e cinema, embora sejam perfeitamente úteis para a escrita literária.

Quando vi este lançamento não imaginava que ele tivesse sido escrito entre 1997 e 2000. Imaginei que fosse mais recente. O autor ainda fala do uso de disquetes no livro, rs. Para os mais jovens, disquete era uma espécie de pendrive com formato de um cartão magnético quadrado de plástico e pouca memória.  Ufa! Quanto tempo para o livro chegar ao Brasil!

Sobre ao que o livro se propõe – falar da escrita – eu diria que ele cumpre o seu papel. Mas, de livros do estilo ainda que não sejam um achado, sempre se aproveita algo.  O livro cumpre sua função de maneira bem peculiar. Como esperado, ele usa a própria experiência ao invés de postulados acadêmicos (que segundo ele geralmente são um saco e nem sempre úteis, o que eu concordo). Ele apresenta dicas pertinentes mas tudo dentro da normalidade. Achei as críticas do Sunday Times, The Guardian (entre outros) na contracapa do livro, exageradas quanto aos elogios.

Stephen King

”A boa escrita, por sua vez, ensina ao escritor aprendiz sobre o estilo, narração elegante, desenvolvimento de enredo e criação de personagens críveis, e também sobre como a dizer verdade.” (Stephen King).

A parte biográfica achei incrível. A história de vida de Stephen King (os momentos que ele aborda), é muito heróica e encorajadora. Aqui sim concordo ser um livro excepcional. Uma das melhores partes é o começo chamado de –  Currículo – , onde vemos um Stephen com seis anos de idade não só sonhando em  tornar-se um escritor mas fazendo algo por isto. Esta parte que vai até a fase adulta é bem emocionante.  Stephen King, não teve uma vida fácil antes da fama. Era uma vida de privações e dificuldades financeiras. E depois da fama, outros problemas surgiram como comentarei mais abaixo. Sua maior incentivadora fora sua mãe e depois que ela morrera, sua mulher tornou-se sua inspiração.

Gostei de coisas como ele deixar afixado na parede com um prego, todos seus telegramas de ‘nãos’ que ele recebia das editoras no início. Depois, mais a frente, a emoção do primeiro grande contrato fechado, que foi a venda da obra Carrie a Estranha por uma quantia muito acima do que ele esperava. Recebera a notícia em um tempo em que mal conseguiam pagar as contas ou comprar um antibiótico que fosse, para a dor de ouvido da filha.

Depois da fama vieram os problemas com o alcoolismo e as drogas. Por fim, anos depois quando tudo parecia bem e superado, o acidente que quase o matou e o deixara coxo. Isto a época em que ele estava escrevendo Sobre A Escrita. Sem dúvida, Stephen King é um exemplo de determinação e o mais importante: ele nunca desacreditou de si mesmo. E ele conta tudo de uma forma bem otimista.

Sobre a questão ‘da escrita’ ele a aborda em estilo de prosa (apesar dela soar um tanto prolixa para mim). Eu não saberia dizer quanto aos livros ficcionais dele obviamente por não tê-los lido  mas  em  Sobre A Escrita a linguagem dele não me cativou muito embora ele use um pouco de humor – que é algo que eu gosto – para escrever este livro.

Enfim, é um livro que eu indico e termino a primeira parte da resenha aqui. Quem se interessar sobre o conteúdo mais ‘didático’, é só continuar lendo o post.

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Em síntese, Stephen King não se apega tanto a regras e paradigmas. Também, dá uma banana para a crítica literária que parece ser igual em qualquer lugar. Em alguns aspectos eu acho que a crítica tem seu papel mas, o preconceito jamais poderia ser algo legítimo principalmente dentro da arte. Seja lá disfarçado do que. De forma alguma a arte deveria ter grilhões. E ele aborda de forma rápida isto e dá o exemplo do escritor Raymond Chandler (que era um trabalhador braçal) e também cita outros escritores famosos – como o próprio Shakespeare – que tiveram dificuldades em serem reconhecidos.

”boa parte da crítica literária serve apenas para reforçar um sistema de castas tão antigo quanto o esnobismo intelectual que o alimenta. Raymond Chandler até pode ser reconhecido agora como uma figura importante na literatura americana do século XX (…) mas existem muitos críticos que rejeitam essa avaliação de antemão.”

Em contrapartida, Stephen King não poupa os escritores ruins. Ele na verdade os ‘massacra’ no livro citando até nomes e exemplos que não citarei aqui pois, são muitos.

” Lamento, mas existem muitos escritores ruins (…) Alguns tiveram sucesso e compraram casa no Caribe, deixando para trás um rastro de advérbios pulsantes, personagens canhestros e construções vis em voz passiva.”

Ele fala de algumas coisas que para mim não ficam muito claras. Como esta questão da voz passiva mesmo, por exemplo.

”Existem dois tipos de verbos: ativos e passivos. Com um verbo ativo, o sujeito da frase está fazendo alguma coisa. Com um verbo passivo, algo está sendo feito ao sujeito da frase. O sujeito só está deixando acontecer. Evite a voz passiva.”

Nem todo personagem é um James Bond que precisa estar em ação o tempo todo. Mas é um assunto que ele aborda e é de bom senso se aprofundar.

Há algumas outras coisas que achei um tanto subjetivas. Questão de gosto e estilo e não, de serem certas ou erradas. Mas ele as coloca como erradas do seu ponto de vista. Talvez alguém mais experiente em escrita possa lhe dar razão. Eu particularmente não saberia dizer no momento sobre isto. Erro ou questão de estilo?

”Outro conselho que dou a você antes de seguirmos para a próxima bandeja da caixa de ferramentas é: o advérbio não é seu amigo”.

”- Largue isso! – gritou ela, ameaçadoramente.”

É uma fala horrível, mesmo. Irei reler minhas coisas a fim de ver se encontro estas pérolas, rsrs. Mas talvez seja mais uma questão de feeling do que propriamente de ser certo ou errado. Ameaçadoramente não é nada melódico, rs. Mas as vezes o feeling vai para o espaço. O que ele mesmo confessa as vezes flagrar-se nesta situação.

Esta caixa de ferramenta na citação mais acima, é uma ‘caixa de ferramentas’ que segundo ele, todo escritor deve ter. Ele a divide em quatro partes básicas (bandejas), aconselhando que o escritor inclua mais bandejas posteriormente conforme evolui. Na primeira bandeja encontra-se o vocabulário e a gramática. Depois, na segunda bandeja, estão os elementos de estilo e por aí vai.

Há quem ache que para escrever mistério e terror é preciso rechear a estória com muitas descrições para poder criar a atmosfera e incutir o suspense e o medo na mente do leitor. Mas Stephen King discorda disto.

”A descrição pobre deixa o leitor confuso e míope. A descrição exagerada o enterra em detalhes e imagens. O truque é encontrar um bom meio-termo (…) saber o que descrever e o que deixar de lado (…) Não sou fã de textos que descrevem nos mínimos detalhes as características físicas das pessoas e o que estão vestindo (…) se eu quisesse ler descrições de roupas, eu recorria a um catálogo de lojas de departamento (…) Para mim, a boa descrição consiste em apenas alguns detalhes bem-escolhidos que vão falar por todo o resto…”

Por fim, em épocas como esta, esta fala dele daria uma longa discussão relativista:

”Igualmente errado é deliberadamente se voltar para algum gênero ou tipo de ficção para ganhar dinheiro. Para começar, é moralmente tortuoso – o trabalho de escrever ficção é encontrar a verdade dentro da rede de mentiras da história, e não se comprometer com a desonestidade intelectual em busca de grana. Além disso, irmãos e irmãs, não funciona.”

Como diz a epígrafe do próprio livro:

‘Mentirosos prosperam” (Anônimo).

Contraditório?

É um Stephen King cheio de provocações!

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About the author

Graduada em Comunicação Social (Rádio e Televisão) com habilitação em roteiro. Paulistana. Gosta de dias nublados, leituras densas, música, cinema, gastronomia, e escrever.

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