Literatura Israelense
A CAIXA PRETA

Como fazer uma resenha deste livro grandioso sem deixá-lo pequeno? Para fazer uma resenha que faça jus a esta estupenda obra, seria necessário ser tão genial quanto Amós Oz.

Dizer que este livro é apenas sobre o relacionamento entre Ilana Sommo e Alexander Guideon é o cúmulo da simplificação. Mesmo acrescentando que a estória tenha a questão dos judeus e palestinos como pano de fundo.

Eu em minha limitação não saberia sintetizar todos os assuntos que este livro aborda. Mas sei que não é só isto: um romance doentio e um conflito entre povos. Este livro fala de muitas coisas. Coisas que tem a ver com a vida, com a morte, com o amor, com o ódio, com a paz, com a guerra, com a existência e a não existência, com o sagrado e o profano, com a sanidade e a loucura, com Deus e o Diabo, com a fé e o ceticismo, com o sentido e o inexplicável. Com revelação e mistério, com a queda e a redenção. Enfim, com o ser humano em seus extremos. Suas ambiguidades, suas muitas faces. A vida, o Universo… Você levará um soco e só acordará depois de alguns dias depois de ler A Caixa Preta. Pelo menos foi assim que aconteceu comigo. E um ano depois de ler a obra me desafiei a levar novamente seu soco. Que não teve mais o mesmo impacto pois o fator surpresa já não existe. Mas ainda assim…

Para cada sentimento, outro contrário. O autor nos fornece um coquetel de emoções em doses homeopáticas e de repente, solta uma bomba nuclear em nosso peito. Mas não é somente emoções que ele nos fornece, pois a estória não é um dramalhão para provocar sentimentalidades. Não é disto que se trata. A vida e o ser humano vistos mais de perto, sem suas máscaras, na intimidade do ser, comove pois expõe nossas misérias e nossa pequenez. Não, não é somente emoções que sentimos ao ler o livro. Ele nos traz reflexões profundas. Não é preciso ser filósofo para pensar sobre as coisas da vida. Para isto, basta sensibilidade.

Eu encontrei uma dificuldade (na verdade um problema), para falar da estória em si. Não porque não a tenha assimilado mas porque se eu falar da estória sem dar spoiler, ela ficará pequena. Pois ela é tão amarrada e complexa que qualquer fio da meada que você puxe, fica impossível compreender a imensidão dela sem puxar o resto e isto seria impossível fazer sem ter que contá-la. O que seria uma pena pois este livro deve ser lido como um salto no escuro. 

O livro é escrito de forma epistolar (através de cartas, bilhetes e telegramas). Amós Oz trabalha isto com tamanha genialidade, que uma estória como esta escrita de outra forma, não caberia em duzentas e quarenta e duas páginas como ele conseguiu fazer. Isto porque todos os personagens trocam correspondências entre si. Pois além dos personagens principais, Ilana e Alexander (Alec), temos o atual marido de Ilana (Michel Sommo), o filho dela do primeiro casamento com Alexander (Boaz), o advogado e administrador dos bens de Alexander (Zakhein Manfred) e o pai de Alexander que é apresentado apenas através das cartas mas que não deixa de ser um personagem muito importante e chave de muitas questões do filho Alexander.

Personagens ambíguos, profundos e complexos e portanto, fascinantes. Cruéis, sarcásticos, agressivos, culpados cada qual seu modo e inocentes todos. Todos com seu lado humano tentando achar sentido nesta loucura que é o viver. Algozes e vítimas. São todos anti-heróis.

A escrita de Amós Oz é irrepreensível. Um tiro certeiro direto ao coração e a mente. Conjunto da obra, perfeito.

Comente via Facebook

Comente via Facebook

About the author

Graduada em Comunicação Social (Rádio e Televisão) com habilitação em roteiro. Paulistana. Gosta de dias nublados, leituras densas, música, cinema, gastronomia, e escrever.

1 comentário

Deixe um comentário

Arquivos
Assinar Blog por Email

Digite seu endereço de email para assinar este blog e receber notificações de novas publicações por email.

Seguir modo abstrato
%d blogueiros gostam disto: